Caminhando pelos corredores, observando aquelas pessoas bem arrumadas e elegantes, percebendo muitos sorrisos felizes por estarem fazendo parte de um dia tão importante, não pude deixar de pensar. Quando um escritor cria uma obra de ficção ele está inventando fatores originários de sua mente criativa, mas o que dizer quando a nossa própria realidade é inventada? Vivemos numa ficção. E não, não é tão filosófico assim.
O momento atual ficaria registrado nos livros de história como a ECO-92 e Rio+20, embora não fosse sobre meio ambiente o assunto. Simplesmente estariam discutindo sobre o que considero ser o cerne de todos os nossos pecados e problemas, aquilo que faz a situação do país ser o que é. Educação. Finalmente chegamos a isso. Mas seria importante de verdade se não fosse a trágica mente de uma boa parte dos nossos governantes.
Em realidade a reunião seria para discutir o que fazer em relação à educação em nível nacional, embora todos soubessem o que precisava ser feito. Não era preciso muita coisa para levantar soluções. Parece que queriam ver um milagre, o que é impossível. Até a imprensa estaria registrando tudo, mas me pergunto se nos eventos já acima citados como exemplos, que falavam sobre meio ambiente, não se resolveu muita coisa, imagina num evento que é meramente nacional e se discute algo que na verdade é ainda mais profundo, por ser a origem de nossos problemas. A história sempre se repete.
Enfim, vários engravatados passando por mim e, olha que interessante, no momento sou um deles, com a diferença de que eu me importava com tudo.
Nada complexo. Basicamente haveria uma mesa redonda e todos falariam um pouco. Estavam lá pessoas da presidência, senadores, deputados e até gente do povo. Principalmente professores que nem eu. Sentamos e esperamos começar. Não sei se estava escrito nas estrelas que isso deveria acontecer dessa forma, mas eu seria o último a falar.
Todos falariam o que considerava óbvio. Eu, inclusive, faria o mesmo. Mas enquanto falávamos o óbvio eu observava e pensava o que não estava na cara de ninguém.
Começou com o hino. Parece que é o maior sinal de patriotismo que eles podem chegar. Sério que eles fizeram isso? Sim, estavam cantando o hino nacional. Estava ao vivo para todos verem. Eu vaiava mentalmente enquanto fingia estar gostando da brincadeira. Para mim só podia ser sim uma brincadeira. Sou patriota, amo a minha pátria, mas até eu sei que neste caso não se aplica o hino nacional. Chamem-me de revoltado, mas primeiro provem que gostam do país, de forma objetiva, promovendo melhorias. Depois amem-no de forma simbólica ao cantar o hino, mas eles fazem tudo do avesso mesmo.
Já estava ficando com receio desse evento ser lembrado como “aquele que cantaram o hino nacional” e só. Então começaram os trabalhos. A presidente começou a falar como que em uma década a educação melhorou no país. A imprensa toda ouvindo, filmando e escrevendo o que era dito. Oras, é um evento visando promover melhorias na educação. Por que dizer que ela melhorou? Se for o caso qual a lógica desse evento? Eu sou louco ou estou mesmo enxergando algo além das imagens que me são passadas? Pois eram somente melhorias que supostamente ocorreram que se comentava.
Falou sobre o aumento do número de brasileiros estudando como um fator positivo. Essa é a parte clara e óbvia na mente de todos. Ela só se esqueceu de mencionar que as salas de aula ficam extremamente cheias, o que dificulta rendimento de professor dando aula e aluno aprendendo. Além, é claro, de que quantidade não é qualidade, que muitos brasileiros ao alcançarem o ensino médio mal sabem ler e escrever, pois o ensino de base, ou fundamental, que é em minha visão o mais importante, é sucateado. Curiosamente eles falam menos do ensino de base e mais do ensino superior. Desinteresse ou estratégia? Ninguém percebe que educação fundamental é extremamente importante. Investem menos nela. Não adianta gastar bilhões com ensino superior e médio se o ensino fundamental não for satisfatório. Tenho colegas de profissão que reclamam de ter que reensinar os alunos com matérias básicas, o que não está previsto no programa de ensino, antes de começar o conteúdo oficial do curso superior. Muitos alunos realmente chegam à universidade com dificuldades em fazer contas simples e sem saber escrever com uma gramática correta. Nem sei como passam na universidade pública. Devem ser as cotas, que não é objeto de discussão agora.
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Contos Diversos e Universos Paralelos
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