P r ó l o g o

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Eu estava sozinha.

     No primeiro momento, sentei-me no meio do piso de cerejeira clara, dobrando as pernas sob mim e fitando o fogo da lareira com mais intensidade do que o olhar de uma pessoa apaixonada. O fogo ardia com força, mas não era capaz de acabar com todo o frio, por isso que eu tinha saído da minha cama naquela madrugada fria de inverno.

     Puxei o xale da mamãe sobre os ombros, o tecido pendendo de ambos os lados, muito maior do que meu corpo pequeno. Ainda tinha resquícios do perfume caro de lavandas. Onde estava a mamãe? Se ela tivesse arrumado minhas cobertas, eu não teria levantado e não estaria com medo! Eu tinha procurado por ela no quarto do papai, mas ela não estava lá, nem em nenhum outro cômodo da casa. Já fazia mais de dois dias que ela não me colocava para dormir. Dois dias sem que ela chegasse pela porta da frente e me recebesse com beijos e abraços. Dois dias sem olhar para a mulher mais bonita que eu já tinha visto.

     Quando pisquei os olhos novamente, a lareira estava quase completamente apagada. Assim que coloquei os pés descalços no chão frio, percebi que tinha adormecido por um bom tempo, porque o sol saía levemente pela janela com persianas. Peguei meu ursinho com uma mão e arrastei comigo a camisola de linho branca. Meus olhos mal tinham se aberto quando ouvi a voz estrondosa e grave do papai.

     — CADÊ A MINHA MULHER?

     Eu corri pelas escadas até o andar de baixo, quase tropecei por conta das meias de estrelinhas. Eu gostava delas! Só que ao ir para frente da minha casa, vi o papai gritando com vários homens grandes e cercados por carros com luzes vermelhas e azuis que martelavam dentro da minha cabeça como um aviso de uma cosa muito, muito ruim. Um deles segurou o papai pelos braços. Ele estava furioso, eu nunca tinha visto ele assim antes!

     — Papai... — chamei baixinho, apertando meu ursinho contra meu corpo.

     Ele se virou para mim com os olhos azuis cheio de lágrimas. O homem grandão o soltou e o papai me abraçou. Foi um abraço muito apertado!

     — Está tudo bem, mon petit. O papai está aqui agora — disse com a voz estranha — Vai ficar tudo bem. Eu prometo! Tout ira bien... Tudo bem...

     Eu olhei sobre o ombro dele, sem entender nada. As luzes vermelhas e azuis continuavam a piscar, o papai não parava de falar comigo e os policiais grandões vinham na nossa direção. O que estava acontecendo? O que eu perdi enquanto adormeci na sala do segundo andar?

     — Cadê a maman? — algo me dizia que era sobre isso. — Eu estava com medo. Ainda estou com medo, papai.

     — Ela saiu. — disse com a voz carregada de emoção — Mas eu e sua irmã estamos aqui. Não é preciso ter medo quando se está perto da família, oui?! Uma moça está conversando com sua irmã, mas eu e você também temos que fazer isso. Não se preocupe, Solzinho, tudo vai se resolver.

     O papai me soltou para falar com um moço e eu fiquei com uma policial. Ela tinha uma beleza exótica com os cabelos ruivos curtos e todo aquele uniforme com... Armas?! Mas seu sorriso parecia triste. Por que ela estava triste? Eu também tinha que ficar triste?

     — Oi, pequena. Eu sou a Alice. Você é Sophie, não é?

     Eu balancei a cabeça afirmativamente, apertando meu ursinho com força suficiente para fazer um dos botões saltaram para fora do buraco já remendado.

     — Você pode conversar um pouco comigo? Eu acho que os adultos lá fora — ela apontou para fora da casa, fazendo uma careta — estão tendo uma conversa chata.

     Eu sorri e assenti. Nós nos sentamos no sofá branco da mamãe e eu fiquei balançando a minha perna para frente e para trás.

     — Soph. Posso chamá-la assim? — eu assenti e ela continuou — Você tem quantos anos?

     — Cinco. — murmurei.

     — Hm, você já é uma menina crescida não é? — disse com um sorriso, olhando para o Teddy — Foi a sua maman que o deu para você?

     — Foi. — virei o ursinho para mim e mexi seus braços fofos — Faz tempo. Ela sempre me deu ursinhos no natal, mas eu sempre preferi esse. Ele tem cheiro do perfume dela. Acho que a mamãe espirra um pouquinho só — disse, espremendo meus dedos — toda noite, quando pensa que eu estou dormindo. — franzi o cenho — Eu gosto quando a mamãe me coloca para dormir, porque eu não tenho que levantar ou ficar com medo.

     — Medo de... Alguma coisa, algum monstro? Ou... Do seu pai?

     Inclinei a cabeça, confusa. Meu cabelo caiu solto da trança, misturando as mechas escuras e lisas com as mais embaraçadas.

     — O papai não. — senti minhas bochechas esquentarem, enquanto entrelaçava as mechas soltas entre os dedos — É que... Tem alguns bichos no armário e... Embaixo da cama...

     A moça soltou um leve suspiro, como se não tivesse gostado da resposta.

     — Quando foi a última vez que você a viu, Sof?

     — Foi quando a mamãe me deu boa noite no dia antes de ontem e de ontem — eu disse, forçando minha cabeça a pensar — Ela estava triste.

     — Triste? Por que você acha isso? Aconteceu alguma coisa ruim aqui na sua casa? — ela colocou os cotovelos sobre os joelhos e se inclinou para frente — Seus pais brigam um com o outro, acontece algo ruim?

     Eu balancei a cabeça de um lado para o outro.

     — O papai e a mamãe não brigam. — eu fiz uma careta — Eles se beijam.

     Ela riu.

     — Então, você não sabe por que a mamãe estava triste? — perguntou ela — O que mais pode me contar? Você não consegue se lembrar de nada que a mamãe disse para você, querida? — nesse momento, seu rádio começou a soltar um som incomodante.

     Minha cabeça deu uma volta. Eu me lembrava de brincar muito, do papai conversar no celular e do beijo de boa noite da mamãe. Olhei para a moça bonita na minha frente, depois fixei meus olhos na porta da frente. O papai estava conversando e brigando com os policiais, as luzes do carro da polícia não paravam de piscar e eu me vi sentada e abraçada fortemente com o Teddy.

     Quando eu olhei novamente para os olhos escuros da moça, ela me olhava ansiosa, como se quisesse algo de mim. Então, foi naquele momento que eu soube: a mamãe não ia voltar pra casa.

     E foi assim que meu inferno começou.

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