Templo de Áries
Ano 484 | 3ª Era
Ariel Sumaron batalhou contra o distintivo de ouro e outra vez mais falhou miseravelmente. A insígnia dourada teimou em ceder enquanto corria, ofegante, pela gélida imensidão negra do Templo de Áries. Limitou-se a fender dos ombros o denso manto de veludo azul-turquesa que barafustava sobre suas costas, e, num rompante de desespero, tratou de rasgá-lo por inteiro, mas absteve-se do trabalho de virar-se para vê-lo imergindo em direção às trevas.
Sombras régias como ferro observavam-no do interior de inamovíveis armaduras quais um dia pertenceram a antigos cavaleiros e heróis, homens cuja bravura os tornaram imortais na memória do Templo de Áries. Fantasmas azuis reivindicavam as armaduras à medida que os céus relampejavam, trazendo consigo repelo e violentos tremores que retumbavam pelas paredes de pedra. A Fúria dos Deuses. Céu e mar em cólera, se rebelando contra as imundices e injustiças mundanas. Tratava-se do sétimo dia de tempestade ininterrupta, um fenômeno estranho e nunca antes registrado.
Ensinaram um dia a Ariel, em tempos há muito esquecidos, que as nuvens negras representavam o manto de amargor estendido por Hades; a densa chuva, trovões e relâmpagos, anunciavam o desgosto de Zeus, furioso, o maior e mais temido de todos os deuses; a rebelião das ondas oceânicas provinha das esbravejadas coléricas de Poseidon. Tratava-se de uma resposta clara a todas as desgraças que vinham se acumulando desde o rebentar da guerra que arrastara seis dos sete impérios para um conflito sangrento e interminável, culminando agora na terrível guerra civil que assolava por completo o Império de Áries, indo da rebelião dos Cignus contra os senhores seus suseranos, os Gavialbus, até a vingança dos Shaga contra os Dracamare. Vivenciou dois duríssimos anos de conflitos, presenciando a queda e ascensão de imperadores e reis feito o voar dos pássaros nos céus. E milhares de vidas inocentes perdidas, obviamente. Embora frígidos, os deuses no fundo amavam seus subordinados e desejava-os incólumes, no mínimo bem, especialmente diante das decisões cruéis de líderes gananciosos. Os Deuses compreendem aquilo que fazem, os homens, não!
Ariel estava distante de qualquer compreensão. Tudo o que sabia limitava-se às poucas palavras que ouvira da boca de sua intendente pessoal, senhorita Márcia Hilelis. Ela atravessou a porta de seu gabinete imperial, ofegante.
― Majestade Imperial ― ela fez uma mesura apressada. ― Há um senhor que deseja vê-lo. Diz ser um nobre e traz notícias de...
Ariel ergueu-se num sobressalto.
― Vamos, fale!
― ... De Athena.
As palavras ecoaram através de seus pensamentos enquanto deixava senhorita Márcia e o gabinete apressadamente. Passou por Lucas Alassor, o Comandante da Guarda Imperial, e viu-o movimentando-se para o seguir, como competia-lhe o dever. Era possível ouvir os pesados passos dele acompanhando-o logo atrás.
Perdera o fio de contato que ainda mantinha com o Templo de Athena desde a última vez que vira Imperatriz Ágatha Persócles durante o Acordo Imperial Supremo. Àquilo, os termos de paz foram assinados no Panteão dos Deuses, a sede do Alto Conselho dos Imperadores. Despediu-se tristemente de Ágatha, porém tratara de enviar-lhe correspondências. Foram tantas e tantas mais que sequer ousaria mensurar a quantidade. Não recebeu resposta de nenhuma, sequer, de forma que seu coração se apertava de dor na simples menção do nome dela. Ágatha... Enfim um mensagem oficial, pensou, considerando isto ser insuficiente para calar-lhe o coração irrequieto. Seu real desejo era poder ouvir suas doces palavras, sussurradas por lábios tão igualmente doces, e quanto mais informais, melhor. Beijos parecia-lhe uma impossibilidade ainda maior, distante de qualquer cogitação.
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O Cavaleiro da Maldição
FantasyMuitos são os que conhecem o mito dos continentes perdidos: Atlântida e Lemúria. O universo criado pelo autor remonta ao período onde Atlântida e Lemúria gozavam seu auge, com fortes inspirações na Mitologia Grega e medieval, além de salpicos vultos...