capítulo 1

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Tempo cronológico no planeta Terra:
setembro, ano de 2019.
Ela sabia que tinha de fugir de lá antes que o médico
voltasse. Ele era perigoso e poderia tentar lhe matar.
Assim que viu a oportunidade de fugir, saltou da cama
hospitalar. Estava descalça, sentiu o frio gélido na sola de seus
pés ao tocarem no piso branco de ladrilho. Usava somente
camisola, mas não tinha tempo a perder procurando uma roupa.
Tinha de fugir daquele hospital, rápido!
Abriu lentamente uma fresta da porta para dar uma
espiada. O corredor estava vazio. Podia sair.
Ao sair, observou o número na porta de seu quarto, era o
33. Começou a correr na direção do quarto 32. Correu por vários
corredores procurando uma saída, mas não encontrava. Estava
perdida.
Cansada de correr, parou para respirar e pensar qual
lado deveria seguir. Olhou para os dois lados do corredor e então
viu a porta à frente. Estava diante do quarto 33, o seu quarto!
Assim que abriu os olhos, Madhu ficou confusa, o sonho
fora muito real. Olhou ao redor e só então percebeu que não se
lembrava de onde estava. Não entendia como havia chegado
naquele peculiar espaço. Estava pávida com a situação. Usava sua
calça jeans surrada preferida, uma camiseta baby look verde com estampa do Mestre Yoda de Star Wars e o velho tênis all star
vermelho.
Encontrava-se sozinha naquela distinta e impecável
alcova. Tudo naquele espaço era impecavelmente branco. Até
mesmo o leito no qual acordara. Apesar de aparentemente ser
feito de pedra, era confortável, tinha temperatura agradável,
parecia macio, o que era ilógico, como tudo naquele lugar.
A farta iluminação vinha das paredes. Sem nenhum foco
principal, toda a parede reluzia. Não havia nada que parecesse
habitual.
Sentou-se lentamente, pois sentia seu corpo pesado e uma
leve tontura. Olhou ao redor novamente à procura de uma porta.
Não havia nenhuma. Havia apenas um aparato anômalo ao lado
do leito que estava centralizado na alcova. Observou adesivos
dourados de formato triangular fixados em sua testa e na parte
medial de seu antebraço. Teve o impulso de retirá-los, não sabia
o que era aquilo.
Ao remover o adesivo da testa, notou que o mesmo se
assemelhava a um chip de celular, possuía terminações douradas,
era maleável, resistente e flexível. Puxou os demais adesivos
insólitos de seu antebraço e se concentrou para lembrar como foi
parar naquele inabitual local.
Sua última lembrança era dirigirseu velho Fiat 500 branco
perolado, numa estreita estrada de terra, a caminho do haras que
pertencia ao grande amigo de seu pai. Madhu adorava montar a
cavalo e quase todos os fins de semana passava ótimos momentos
cavalgando nas colinas verdes da grande Fazenda Harmonia, que
ficava a apenas vinte minutos de sua casa.
Madhu sempre morou com a família numa chácara, num
condomínio fechado na cidade paulista de São Roque. Grande parte do residencial era formado pela Mata Atlântica, área de
preservação florestal e soltura de animais protegidos pelo Ibama.
As chácaras mantinham longa distância umas das outras, sendo
separadas por vegetação virgem, dando a impressão de estarem
isoladas dentro de uma floresta. Madhu sempre gostou de viver
em contato íntimo com a natureza. Cresceu brincando entre
árvores, pisando com os pés descalços na terra, nadando no
pequeno riacho que corria atrás de sua rústica casa de madeira,
pintada de amarelo ouro.
Ela estava cursando o primeiro ano de Arquitetura na
Universidade Bela Artes, em São Paulo. De segunda a sexta,
viajava sessenta quilômetros até São Paulo, assistia às aulas e
voltava. Ter contato diário com uma grande metrópole caótica e
poluída fez Madhu valorizar ainda mais o fato de viver isolada
numa chácara com sua família.
Atordoada e confusa, só então Madhu percebeu que estava
com a boca seca e muita sede. Quando começou a se levantar do
leito para procurar uma saída, teve um sobressalto ao ouvir uma
suave voz masculina atrás dela.
– Não acho uma boa ideia se levantar, ainda está muito
fraca.
Virou-se assustada na direção da voz. O rapaz tinha uma
aparência excêntrica e angelical. De onde ele saiu, ou melhor,
entrou?, pensou Madhu.
– Que lugar é esse? Como vim parar aqui? – perguntou
Madhu, ansiando por uma resposta.
Hipnotizada pelos grandes olhos cor de fúcsia do estranho
e sua beleza exótica, um tanto celestial, Madhu não conseguia
deixar de olhá-lo. Ele tinha cabelo loiro platinado, liso até os
ombros, parecia ter cerca de vinte e cinco anos de idade. Um imponente jovem atlético de aproximadamente dois metros de
altura, com traços angelicais, vestindo uma túnica branca com
uma estampa de um pequeno dodecaedro dourado no peito.
– Sou o Dr. Behosa Prakasa, cientista da nave Shandi33,
na qual nós estamos. A senhorita Madhu não deveria ter retirado
os infropectos – disse o cientista.
Aproximando-se do excepcional aparato ao lado do leito
onde Madhu permanecia sentada, o excêntrico cientista Dr.
Behosa pinçou com os dedos uma tela holográfica que possuía
diversos códigos desconhecidos para terráqueos. Ele digitou
rapidamente alguns códigos, e a máquina robótica alienígena
ejetou adesivos idênticos aos que Madhu havia retirado de sua
testa e antebraços.
Eram tantas as perguntas na cabeça de Madhu, que ela
nem sabia por onde começar. Mas, por mais absurdo que pudesse
parecer, ela não estava assustada. A simples presença do cientista
de ar angelical a acalmava, ele transmitia segurança e confiança.
– Eu só vou deixar você grudar esses negócios em mim
depois que responder às minhas perguntas. Como vim parar aqui?
O que quis dizer com nave? Por que não me lembro de nada que
aconteceu? E para que servem esses negocinhos que quer grudar
em mim? – perguntou Madhu, ansiosa.
– Estamos em uma nave intergaláctica, que é uma nave
espacial projetada para viajar por toda a nossa Galáxia. Quando
necessário, também viajamos para outras partes do Universo e até
mesmo fora dele – respondeu Behosa. – O trauma ainda lhe
impede que se lembre dos últimos acontecimentos que se
passaram com você no planeta Terra. O que chama de negocinhos
são os infropectos. Servem para sua segurança, pois monitoram
seu estado de saúde física, mental e emocional. Madhu ficou estática por uns minutos para digerir a
peculiar informação recebida. Não poderia estar sonhando, pois
se sentia mais lúcida e viva do que nunca. Talvez tudo aquilo se
tratasse de uma experiência científica psicológica na qual era
cobaia. Mesmo assim, não fazia sentido. Nada ali fazia sentido.
Mergulhada na sua frustrante reflexão, Madhu nem se deu conta
que o Dr. Behosa já havia fixado os infropectos na parte medial
de seu antebraço branco. Questionou-se se seria possível aquele
belíssimo homem estar dizendo a verdade. Ela tinha de descobrir.
– Está me dizendo que fui abduzida? – perguntou Madhu,
olhando o infropecto grudado em seu antebraço.
– A senhorita Madhu foi abduzida pelo próprio bem e pelo
bem de todos.
O Dr. Behosa estava ansioso para que Madhu acordasse,
tinha grandes interesses no DNA dela. E Madhu era perfeita e
única para seu audacioso projeto: uma jovem de 19 anos, com um
metro e setenta e seis centímetros de altura, silhueta longilínea,
pesando apenas cinquenta e sete quilos. Tinha o cabelo ruivo
acobreado comprido e ondulado, caído quase até a cintura, pele
muito branca, cheia de sardas no rosto, ombros e braços, uma
invejável boca carnuda, nariz arrebitado e olhos cor amarelo
âmbar. Mas o que interessava para Behosa era a alma de Madhu,
o seu raríssimo DNA etéreo, cuja preciosas informações estavam
guardadas em seu DNA físico.
– Espera aí, como sabe meu nome? – perguntou Madhu,
se dando conta de que em nenhum momento havia dito seu nome.
– Não é a primeira vez que a senhorita acorda neste
laboratório. Estamos monitorando você há algum tempo.
Ah, que ótimo! – pensou Madhu com sarcasmo. – Pelo
menos existe água neste lugar? – perguntou Madhu. Estava com tanta sede que acreditava ser esse o motivo de estar com seu
discernimento prejudicado.
Terminando de fixar o último infropecto na testa de
Madhu, Dr. Behosa digitou novos códigos na tela holográfica e o
exótico aparato ejetou um cone de titânio cheio de água.
– É uma água especial, medicinal, vai fazer você se sentir
melhor. Beba tudo. Precisamos ir – informou Behosa.
Madhu verteu toda a água de uma só vez. E o Dr. Behosa
tinha razão. Madhu se sentia muito melhor depois de beber a
suspeita água medicinal, todo o seu mal-estar passou.
Behosa pegou o cone de titânio vazio das mãos de Madhu
e o devolveu ao aparato alienígena. Seguiu no sentido da parede
e, antes que se esbarrasse nela, ela se abriu de cima para baixo,
sem produzir nenhum ruído, revelando um enorme corredor
iluminado pelas próprias paredes.
– Vamos! – chamou o Dr. Behosa ao ver que Madhu
continuava sentada, sem acreditar no que via.
Madhu seguiu o Dr. Behosa curiosa.
– Vamos? Para onde? – perguntou.
Behosa ignorou Madhu e continuou andando em passos
largos com suas longas pernas. Madhu acelerou os passos para
acompanhar Behosa.
Não andaram muito no corredor e logo entraram num
vasto compartimento de paredes brancas radiantes. O
compartimento espaçoso parecia não ter teto. Olhando para cima,
Madhu só conseguia ver um breu fantasmagórico. Bem no centro
do colossal compartimento, havia uma grande nave em formato tetraédrica estrelada com uma das pontas abertas e uma escada
que dava acesso ao centro da estrela de cor violeta radiante.
Madhu acompanhou Behosa e ambos entraram na nave
estrelada, que levantou voo ultrapassando a escuridão
fantasmagórica até alcançar nova luz e voar na posição
horizontal. A nave estrelada passou por corredores bem
iluminados. Ultrapassando o final do último corredor percorrido,
começou a sobrevoar o céu de uma imensa floresta.
Como é possível? – pensou Madhu, confusa. Havia dois
maravilhosos sóis no lindo céu rosa. Um grande sol vermelho e
outro pequeno sol amarelo vivo. Também se via um rio com
águas verdes bem claras, onde golfinhos saltavam alegremente,
pareciam estar tentando seguir a nave estrelada. Era a paisagem
mais paradisíaca que Madhu já havia visto. Ficou extasiada.
– Saímos da nave? É tão... mágico! Que planeta é esse? –
perguntou Madhu, estupefata.
– A Floresta Lavy fica dentro da nave Shandi33. O céu é
imagem holográfica. Mas todo o resto é real.
Nada daquilo parecia real para Madhu. Tamanha beleza e
paz a fez se esquecer de questões importantes como seu pai César
e sua irmã Natasha, que deviam estar preocupados com o sumiço
dela. E ainda havia muitas outras questões sem respostas, como o
fato de olvidar-se de seu trajeto até aquela esplêndida e colossal
nave alienígena.
Aquele lugar anestesiava qualquer preocupação presente
possível. Era como estar no paraíso citado na Bíblia. A verdade
era que Madhu não estava nem um pouco com pressa de voltar para casa.
Enquanto sobrevoavam a primorosa Floresta Lavy,
testemunhando suas formosas cachoeiras e desmesuradas
árvores, Madhu começou a questionar Behosa, pois sua
curiosidade sobrepunha a hipnótica visão da floresta.
– Quanto tempo eu fiquei inconsciente aqui na nave? –
perguntou. Era difícil para ela acreditar que estavam dentro de
uma imensa nave.
– Foram vinte e três minutos no tempo cronológico de
Shandi33 – respondeu Behosa.
– Meu pai vai ficar preocupado quando notar minha falta
– disse Madhu, num semblante de preocupação.
– Não se preocupe. Quando voltar ao seu planeta só terá
passado poucos segundos fora dele.
Madhu não conseguia duvidar do Dr. Behosa. Por mais
absurdas que fossem suas respostas, aquele ser com ar angelical
parecia ser incapaz de mentir. E ela já estava começando a se
adaptar à estranheza alienígena do imaginável tomando formas
ao seu redor.
– Qual o tamanho desta nave, a Shandi33? – perguntou
Madhu. Parecia um tanto ilógico uma floresta tão grande caber
dentro de uma nave intergaláctica.
– A Shandi33 possui um raio de 1.326 quilômetros. Um
pouco menor que o satélite de seu planeta.
– Uma nave esférica? – perguntou Madhu, numa
admiração de incredulidade.
– Dodecaédrica estrelada na verdade. – respondeu
Behosa.
A espaçonave estrelada na qual sobrevoavam o interior de
Shandi33 atravessou uma grande cachoeira, penetrando uma
caverna rochosa de tom aperolado, onde a espaçonave pousou. A
caverna se escondia atrás do formoso véu de águas cristalinas que
caía de forma graciosa no despenhadeiro abaixo. Uma das pontas
da nave estrelada se abriu.
– Venha! – chamou Behosa, saindo da nave estrelada.
O interior da caverna estava iluminado com diversas
lagartas bioluminescentes, dando um efeito parecido com um céu
estrelado. Os dois caminharam caverna adentro, que acabava
numa grande parede de rocha lisa perolada. Esta se abriu,
revelando uma cidade. Atravessaram a abertura, entrando num
charmoso beco com ares de uma cidade pequena do interior da
Inglaterra, muito bem arborizado.
As poucas pessoas que andavam no beco pareciam
humanos normais como ela, e não um ser exótico como Behosa.
– Humanos? – perguntou Madhu, se referindo às pessoas
que andavam distraidamente no beco, trajadas de túnicas ou
macacões justos.
O grande paredão de rocha se fechou às suas costas e sua
forma estrutural rochosa mudou para um paredão de tijolos
rústicos coberto de musgo.
– Híbridos e androides – respondeu Behosa. – Esta é a
Ala11. Os híbridos nomearam esta Ala de Shambala.
– A cidade perdida dos tibetanos? – perguntou Madhu,
manifestando comoção. Conhecia a lenda budista da cidade
perdida dos deuses.
– Não, nem mesmo semelhante. Deram-lhe este nome
pelo significado do mesmo. Teremos de pegar uma vinama xi.
Andando demoraria três horas para chegarmos ao nosso destino
– disse Behosa, seguindo em direção ao que parecia um jet ski,
que, no local de um volante, havia um painel radiante.
A vinama xi parecia se equilibrar flutuando sobre a
calçada. Behosa subiu na frente, espalmou a mão sobre o painel
radiante e olhou para Madhu.
– Suba – mandou Behosa, de forma autoritária.
– Para onde estamos indo? – perguntou novamente,
enquanto subia na vinama xi. Quando se sentou, uma esfera de
vidro envolveu toda a vinama xi e seus dois passageiros.
– Para sua nova e temporária casa – respondeu Behosa,
fazendo a vinama xi levantar voo.
Madhu segurou firme na alça de apoio à sua frente
sentindo a adrenalina subir conforme a vinama xi ganhava
altitude e velocidade. A vinama xi era bem diferente da nave
estrelada a qual nem se sentia que estava voando, pois a força
centrípeta era nula em seu interior. Já a vinama xi parecia uma
moto voadora em alta velocidade. Mesmo sentindo a emoção
começar a correr em suas veias, tinha de investigar a razão de ter
sido abduzida. Voltou a questionar Behosa.
– E se eu não quiser ficar? – perguntou Madhu, na
tentativa de descobrir se tinha alguma escolha.
– Crianças não têm sabedoria suficiente para saber o que
é melhor para elas. Não tem querer, vai ficar. Não temos mais
tempo para erros infantis.
Ser chamada de criança irritou Madhu profundamente,
pois desde que sua mãe adoeceu de câncer e ficou em coma
induzido no hospital, sem chance de voltar a viver, foi Madhu,
com apenas treze anos, que teve de decidir por sua eutanásia. Seu pai estava depressivo demais para qualquer decisão, e sua irmã
ainda era muito pequena. Seu pai sempre teve uma postura
irresponsável e infantil, incapaz de se lembrar até mesmo de
pagar uma simples conta de luz. Era um artista, pintor, que se
refugiava em suas artes e se esquecia da vida, das filhas, de
comer. E, com a morte da esposa, seu alicerce, se refugiou ainda
mais em suas pinturas, estava depressivo. Era Madhu quem
cuidava dele. Como se já não bastasse ter de cuidar da irmã de
nove anos, seu pai lhe dava ainda mais trabalho que sua irmã
caçula.
– Eu não sou criança! E posso saber quem é que decidiu
me confinar nesta nave alucinógena e por quê? – disse exaltada.
– Tudo ao seu tempo, senhorita Madhu. Terá todas as
respostas em breve.
– Dr. Behosa, me faça um favor? Não me chame de
senhorita, é só Madhu.
– Como queira. E não precisa me chamar de doutor, é só
Behosa.
Os dois ficaram em silêncio o restante da viagem. Madhu
não conseguia tirar os olhos da extraordinária paisagem que se
via logo abaixo, com lagos de águas cristalinas em parques
floridos, árvores com folhagens alaranjadas e magentas, o céu
holográfico ao alto num tom de lilás e mais ao horizonte num tom
alaranjado com o grande sol vermelho se pondo.
Apesar da exaltação por não obter respostas, Madhu
nunca se sentiu tão viva, tão feliz, sentia uma paz profunda, sentia
vontade de chorar de felicidade. Sentia que estava finalmente em casa.
Behosa estacionou a vinama xi em frente a um charmoso
chalé que parecia ter saído de um conto de fadas. O local era
muito arborizado com enormes e majestosos pinheiros, árvores
frutíferas desconhecidas e outras floridas totalmente tomadas por
flores amarelas, rosas, lilás. Era como ver um chalé escondido
num bosque encantado.
Em sintonia com o bosque, a fachada do chalé era de
pedras rústicas coberta de colmo e com uma encantadora chaminé
que se erguia bem ao alto. As grandes janelas mais pareciam
portas duplas. Trepadeiras floridas subiam contornando o arco da
grande porta verde musgo de entrada. Era uma casa perfeita para
Madhu, combinava com seu gosto, com sua personalidade.
– É aqui – informou Behosa, apontando a casa com o
queixo.
– É perfeita – disse Madhu, admirando a arquitetura
rústica da fachada de sua nova casa de conto de fadas.
Assim que Madhu e Behosa desceram da vinama xi, uma
garota de aparência de adolescente rebelde extravagante abriu a
porta. A jovem estava com as mãos sujas de tintas, seu cabelo
crespo loiro platinado preso num rabo de cavalo chamava a
atenção. Ela sorria e caminhava em passos largos na direção de
Madhu.
– Até que enfim, Behozito! – disse a extravagante jovem,
dando um amistoso soco no ombro de Behosa. – Estava
demorando. Sabe que não gosto de morar sozinha. Melhor uma
terráquea do que nada.
A garota pegou Madhu de surpresa com um abraço.
Madhu sutilmente retribuiu o abraço.
– Pode me chamar de Liv. E já pode tirar os infropectos,
não precisa usá-los em Shambala – disse Liv, que usava um
macacão branco justo no corpo, revelando curvas perfeitas.
– Madhu – disse seu nome em cumprimento. – E, afinal,
para que servem esses adesivos mesmo? – perguntou. Ela nem se
lembrava que estava com os infropectos colados na testa e nos
antebraços. E começou a tirá-los.
Liv, Madhu e Behosa seguiram para dentro do chalé,
entrando numa aconchegante sala que mais parecia um estúdio de
pintor, com cavaletes, telas e tubos de tintas por toda parte. Liv
não parecia ser muito organizada, havia deixado o godê de pintura
sobre o sofá que estava coberto com uma manta completamente
manchada de tintas, formando acidentalmente figuras exóticas
abstratas muito coloridas.
Enquanto os três seguiam para dentro da sala, Liv tomou
a iniciativa de responder a pergunta de Madhu:
– Os puros, como chamamos quem não é híbrido, têm
medo de nós, seres emotivos – disse, revirando os olhos. Acham
que podemos atacá-los feitos psicopatas a qualquer momento.
Então eles implantam os infropectos em nós para nos manter
sobre controle quando temos de sair da linda prisão Shambala
para outras Alas da Shandi33. Caso você se torne uma ameaça
para a Shandi33 ou para qualquer tripulante, os infropectos vão
fazer você apagar.
– Esqueceu-se da parte que monitoramos a saúde dos
humanos com os infropectos, que injeta substâncias curativas, se
necessário. – acrescentou Behosa, em pé na soleira da porta,
dando a impressão de que estava com pressa para ir embora.
– Behozito, você sempre só conta o lado bom da história.
Garanto que ainda não contou a ela que de agora em diante ela é uma ratinha de laboratório prisioneira – disse Liv, provocando
Behosa.
– Preciso ir – informou Behosa, que realmente estava com
pressa. – Madhu, amanhã ao nascer dos sóis, Nero virá buscá-la
e levá-la para conhecer sua conselheira. E Liv, não encha a cabeça
da Madhu com suas teorias conspiratórias sem cabimento.
Namastê, meninas! – disse Behosa, dando as costas e indo
embora.
– Espera aí! Você me deve algumas respostas. E que
negócio é esse de conselheira? – perguntou Madhu.
Behosa subiu na vinama xi e partiu, ignorando as
perguntas da Madhu que se mantinha em pé na soleira da porta
vendo a vinama xi levantar voo e sumir no lindo céu de Shambala.
– Não liga, é o jeito dele, sempre com pressa, sempre sem
tempo para nós, inferiores seres emotivos. Mas venha, vou lhe
mostrar seu quarto – disse Liv, puxando Madhu pela mão em
direção à escada. – Você está com fome? – perguntou, enquanto
subiam as escadas.
– Huuumm... – Madhu não sabia se estava com fome.
Eram tantas as novidades, que comer seria a última coisa a pensar.
– Acabei de colher shishades, é a fruta mais doce e
suculenta que temos, melhor que chocolate, que não temos e nem
faz falta. Ah, preciso levá-la para a praia amanhã. É holográfica,
não é mar de verdade, mas dá para nadar. Vai ter uma festa, tem
gente curiosa para conhecê-la. Você é a única terráquea de toda a
Shandi33! Em Shambala, somos todos híbridos ou androides,
menos você, claro! Em outras Alas temos os puros, que não têm
misturas de DNA. E tome cuidado para não confundir híbridos
com androides. Os androides são insensíveis e alguns não têm pênis....
Madhu parou de escutar sua nova amiga alienígena ao
ouvir a palavra pênis. Ela não parava de papear enquanto subiam
a escada. Madhu sentia-se cansada, e tudo que ela queria era que
a Liv parasse de falar sobre festa na praia com androide sem
pênis, e lhe contasse o que realmente importava. O que ela estava
fazendo naquele lugar?
As duas entraram em um quarto bem simples, rústico e
acolhedor, com poucas mobílias. No centro, estava uma cama
king size e diversas almofadas com estampas coloridas sobre ela.
Um grande espelho fixado na parede lateral de pedras chamava a
atenção, dando a ilusão de uma dimensão maior do quarto. Um
banco estofado vermelho estilo colonial estava na frente do
espelho, e logo ao lado um grande baú velho trazia o charme da
era medieval ao dormitório. Duas grandes janelas estavam abertas
revelando uma bela vista do jardim florido.
– Aqui é o seu quarto. Suas roupas foram clonadas, estão
todas no baú. Não precisamos de xampu nem sabonete, a água
esteriliza e limpa tudo e deixa os cabelos sedosos. Menos o meu,
que é terrível, nada deixa meu cabelo sedoso – disse a tagarela
alienígena.
– Desde quando está morando aqui? – Madhu precisava
investigar.
– Aqui na casa, aqui em Shambala ou aqui na Shandi33?
– Na nave.
– Eu nasci aqui, em Shandi33, no laboratório da Ala45.
Sou híbrida, metade DNA de terráqueo, outra metade DNA
siriano. Sou fruto de um experimento para uma nova espécie mais
evoluída de terráqueos. Pelo menos é isso que dizem. A diferença
de uma híbrida, como eu, para uma terráquea, como você, está
mais na porcentagem da utilização da mente e na longevidade do corpo. Por exemplo, eu aprendi seu idioma medíocre em duas
horas. Um terráqueo não conseguiria isso. E posso viver em
média setecentos anos neste corpo.
– Onde estão seus pais? – perguntou Madhu.
– Nossa sociedade é diferente da sua, terráquea. Não
temos pais, nascemos em laboratório, de dentro de uma cápsula
bolha e não de dentro de um útero. Eca! Não nos interessa saber
quem foi o nosso doador de DNA.
– Quem cuidou de você quando era apenas um bebê?
– Minha conselheira e seus auxiliares. Cada criança
hibrida possui um conselheiro. Cada conselheiro tem como dever
educar sete crianças. As crianças vivem na Ala7. Depois que
deixam de ser crianças, são trazidas para Shambala e não
necessitam mais de conselheiros. Mas você, pelo jeito, precisa.
– Liv, eu preciso saber, me conte tudo, nem sei por que
estou aqui. O que eles querem de mim? Você sabe?
– Não sei, só tenho teorias e suspeitas. E a sua conselheira
me orientou para eu não lhe dizer nada. Ela mesma quer explicar.
Se eu disser a minha teoria sobre esse assunto, tomo uma
advertência. E não preciso de mais uma na minha lista de
advertências, poderia perder algumas regalias importantes, como
liberdade para sair de casa e voltar quando eu bem quiser. Sua
presença aqui é um mistério. Os cientistas estão sempre cheios de
segredinhos. Melhor você descansar. Tenho certeza que amanhã
Nero vai passar aqui bem cedo, e você ainda deve estar com a
substância calmante liberada pelos infropectos no sangue. Sua
conselheira vai poder responder todas as suas perguntas. Faça
perguntas inteligentes e não idiotas de terráqueos sem noção.
Liv saiu do quarto e fechou a porta, deixando Madhu sem
respostas e ainda mais confusa.
Madhu se sentia extremamente sonolenta e cansada.
Devia ser efeito de alguma droga no organismo, como disse Liv.
Não teve outra escolha a não ser se jogar na cama e dormir.

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