Capítulo 1 - CrÎnica de uma criança solitária

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   Quando o guarda abriu o cadeado da cela 711 Carlos estava dormindo abraçado a sua gata Kuki. Era de noite no pavilhão 10 da prisão de Sierra Chica e os únicos sons presentes eram os de roncos e de uma goteira no teto que caia em um balde colocado no meio do corredor, nem os sons dos passos nem o do molho de chaves abrindo o cadeado incomodaram Carlos. O que realmente o surpreendeu foram as palavras ditas pelo guarda enquanto o sacudia com ímpeto que um padre tira um demônio de alguém possuído.

- Carlitos, acorda logo e arruma suas coisas! - gritou o vigilante.

Carlos esfregou os olhos, afastou sua gata pra um cantinho e se levantou em um salto. Quis dizer algo, talvez um insulto, um grito, uma frase, mas um longo bocejo foi tudo que saiu deixando a cela em silencio.

- Vamos Carlos! você vai ficar livre cara! - insistiu o guarda.

   A essa altura seus gritos já tinham despertado os outros presos, alguns começaram a colocar seus espelhinhos pelas janelinhas para ver o que estava acontecendo, outro perguntaram quem estava ali. Nem o guarda ou Carlos responderam, ainda estavam tentando se entender.

- Não brinque comigo! você veio me acordar só pra fazer uma brincadeira de muito mal gosto? - respondeu Carlos.

   Seus olhos ainda estavam se acostumando a luz e ele estava com aquela expressão de espanto que as pessoas geralmente tem quando acordadas abruptamente no meio da noite, sua gata pulou da cama e se esticou um pouco no chão antes de sair pro patio pra procurar outro lugar para procurar outro abrigo pra dormir.

O guarda continuava parado na porta da cela, olhou fixamente para ele e repetiu a noticia:

- Carlos você vai ser libertado! eu to falando serio caralho. Eles me mandaram a noticia la da diretoria, o meu chefe de turno me ligou para pedir que eu te avisasse. Anda logo e arruma suas coisas, não me faça perder tempo.

- Não fode, eu não nasci ontem. Por acaso eu tenho cara de imbecil? to falando serio, essa não é uma brincadeira pra se fazer com alguém como eu que esta cumprindo prisão perpetua.

- Carlitos, eu juro por Deus que você vai embora agora mesmo - disse o quarda enquanto dava um beijo na cruz da corrente que usava.

- Eu não caiu nessa! não tenta me enganar não! olha na minha cara pra ver se alguém como eu acredita nisso! eu vou ficar aqui pra sempre!

- Eu jamais faria uma brincadeira com algo ão serio. Vamos, troca de roupa. E se não acredita em mim eu te levo na diretoria e faço o os oficiais falarem pra você.

Carlos trocou de roupa, o guarda disse ele poderia ir buscar as coisas dele depois (roupas, cobertores, sapatos e outros pertences enrolados no colchão), ele levou apenas as cartas escritas por seus pais. Quando chegou a diretoria acompanhado pelo guarda um oficial o felicitou:

- Muito bom! então o dia chegou? viu Carlitos como tudo chega um dia?

- Não! vocês estão fazendo uma brincadeira bastante fulera, deixem de piadas que isso não se faz - interrompeu Carlos de modo seco.

- Não seja tão desconfiado, assina aqui que vamos te entregar as passagens e mais algumas coisas, vamos te dar o dinheiro por todo o tempo que você trabalhou - informou o oficial enquanto entregava uma lapiseira a ele.

Esse simples ato parece ter tranquilizado Carlos, agora sentia que eles falavam a verdade. Antes de assinar os papeis confessou:

- Ate que enfim minha liberdade chegou, pensei que eu ia morrer aqui.

Depois atravessou a porta da diretoria e caminhou ate o portão principal onde muitos de seus ex-colegas haviam saído, agora era a vez dele.

- Você vai pegar o Serrano? esse ônibus te deixa na Olavarría - avisou o oficial que ficava na entrada da prisão.

𝙟 𝙰𝚗𝚓𝚘 𝙜𝚎𝚐𝚛𝚘 (𝚃𝚛𝚊𝚍𝚞çã𝚘)Onde histórias criam vida. Descubra agora