1780
Alex Urrea estava deitada no chão em um dia chuvoso de abril.
A praga da disenteria que amaldiçoou toda a França à deixou tão doente, que ela era incapaz de andar ou comer antes do seu falecimento, deixando lara trás uma Sina próxima a se casar e duas filhas de luto.
Sebastian escolheu cravos amarelos para o túmulo de sua esposa, misturando as flores cor-de-limão com lírios laranja. A mãe de Noah se conteve de sorrir no funeral, o significado dessa escolha quase divertido demais para ela.
Nesse dia chuvoso de abril, Noah conheceu seu tio Alphard , um homem feliz e bom que, na opinião de Noah, não poderia ser parente de sua mãe. Ele deve ter sido um bastardo, o filho de dois amantes carinhosos que tiveram que entregar seu filho. De maneira alguma Alphard Urrea, o homem feliz e generoso que deu a Noah uma bala de caramelo, era parente de Wendy Urrea, a odiosa mulher que cospe no rosto das empregadas e ameaça seus filhos.
-Você também gostaria de uma bala, mon petit?- perguntou Alphard, sua voz mais suave do que ceda- Josh, certo?
Josh olhou para o homem a menção de seu nome, seus grandes olhos olhando carinhosamente o homem mais velho a sua frente.
-Sim, obrigado monsieur.
Nos últimos três anos que se passaram, Noah e seu escudeiro se tornaram bons amigos. Quase tão próximo de Josh quanto era de Bailey, o que era compreensível desde que Josh vivia com os Urrea.
O primeiro ano foi complicado, Wendy concordou com a presença de Josh porque ela pensou que mandaria nele e o faria fazer serviços somente destinados a empregadas. Mas Josh não era nem um tipo de empregado, como escudeiro de um herdeiro rico como Noah, ele tinha privilégios e direitos que até mesmo Wendy Urrea não poderia desrespeitar.
Josh tinha o direito de escrever e desenhar, ele tinha o direito de comer o que desejasse e o que Noah permitisse, que no casa de Noah, era tudo. Ele tinha o direito de viver uma vida boa e normal na mansão Urrea, enquanto ele seguisse as ordens de Noah, se o garoto o desse alguma.
Noah se recusou a dar ordens para seu escudeiro, ele acreditava que eram iguais e que eles mereciam compartilhar da mesma luxúria e estilo de vida.
Josh riu quando escutou isso, cobrindo sua boca com sua mão esquerda com vergonha.
-Por que está rindo, débil?- questionou Noah, sorrindo enquanto ele dava um tapa na nuca de Josh, brincalhão.
-Por nada, monsieur, eu só te acho extremamente divertido.
-Eu não gosto quando você me chama de monsieur. Me chame pelo meu nome, nós somos iguais, eu e você, afinal!
-Em que bela mentira você vive, meu príncipe- disse Josh, sua voz cheia de algo que Noah não podia entender totalmente, algo triste- Nós não somos iguais, nós nunca seremos iguais. Seu sangue é mais puro que o meu, seu sangue irá te abrir portas que irão continuar fechadas para mim.
Noah continuou em silêncio, seus dedos gentilmente virando a página do livro que ele estava lendo com Josh, sua cabeça deitada no ombro de seu escudeiro.
-Eu não sou nenhum príncipe- o garoto mais novo apontou.
-Me perdoe, très cher, é verdade que você não se parece nada com seu rei.
Era de conhecimento comum que Luís XVI era fisicamente desagradável e um péssimo rei, tudo junto. Tímido e indeciso, o amor que as pessoas tiveram pelo novo rei e rainha já estava morto.
-Você diz que ele é meu rei, você não o considera como o seu também?- perguntou Noah para o garoto de treze anos, ambos muito novos para terem tais discussões.
-Meu coração e minha mente ainda navegam nas águas de Gales, infelizmente.
-Você sente tanta falta assim?
Josh fechou o livro que eles estavam compartilhando devagar, seus dedos acariciando a capa de couro ternamente.
-Eu tenho saudade de minha mãe. E do meu cachorro. Mas eu realmente acreditava que eu me tornaria escudeiro de um esnobe ingrato que iria me bater e insultar até meu último suspiro. Eu fico surpreso o quão livre você me deixa ser, monsieur.
-Como eu te disse, Josh. Eu nos vejo como iguais e vou te tratar como eu gostaria que me tratassem.
Noah olhou para o garoto mais velho, seu cabelo caindo lindamente em seus olhos. Ele se parecia com uma pintura, um momento congelado na história que fez o coração de Noah bater mais rápido.
-Eu aprendo todos os dias com você, monsieur- respondeu Josh enquanto abria o livro uma segunda vez.
-E eu com você, mon ami.
——
~Ana Clara ✨

YOU ARE READING
Royals {Nosh}
Fanfiction"Em que bela mentira você vive, meu príncipe" Onde Noah faz parte da burguesia francesa e Josh é seu escudeiro.