Querida Mara,
é estranha a sensação de entrar em um lugar onde ninguém te conhece. Não passei por isso pelos últimos quatro anos, porque em todos os lugares em que eu ia, você estava lá.
Tentei lembrar das nossas conversas no seu quarto durante a noite. As luzes apagadas, mas você deixava a lanterna do celular ligada pois sabia que o escuro me assustava. Quando você me perguntava onde eu gostaria de estar, eu sempre respondia que em qualquer localidade, desde que ninguém soubesse meu nome, porém, agora, não sei se sou corajosa o suficiente.
Penso em você todos os dias desde que me mudei, gostaria de saber se te contaram que eu deixei a cidade e o que aconteceu com você. É exaustivo tentar imaginar.
Hoje tive minha primeira sessão de terapia em grupo, ainda não sei dizer se gostei, mas não é como se tivesse escolha. Ou eu frequento as reuniões, ou vou para a igreja, tentar descobrir com um pastor porque eu sou do jeito que sou. Espero que o mesmo não tenha acontecido com você.
Ao adentrar o ginásio do prédio de apenas três andares, todos os rostos se viraram na minha direção e pude sentir que me analisavam, alguns talvez tentassem ler a minha história. Eu quis correr, me esconder, ignorar o meu passado, mas um dos garotos se levantou, esboçando um sorriso amigável. Seu cabelo era curto e preto, liso mas como se em algumas partes se rebelasse, formando leves ondulações. Seus olhos eram escuros e alguns pelos começavam a crescer em seu rosto, iniciando uma barba. Ele usava um moletom largo e colorido que combinava com o All Star roxo.
— Venha, eu pego uma cadeira pra você.
Eu me aproximei e sorri quando ele pediu que abrissem a roda, acomodando minha cadeira ao lado da sua. Me sentei e tirei minha jaqueta, ficando apenas com um suéter fino, mas que cobria toda a extensão de meus braços. Talvez sentisse ainda mais calor pelo nervosismo que percorria minhas veias.
— Seja bem vinda, acredito que você seja a Arizona. — assenti. A senhora tinha cabelos levemente avermelhados, algumas sardas se espalhavam por seu rosto e seus óculos se acomodavam em seu nariz fino. Provavelmente ela e minha mãe haviam conversado pelo telefone. — Eu sou a doutora Abgail e sou a responsável pelo grupo.
Todos ainda me examinavam, mas a chegada de mais uma atrasada desviou a atenção deles. A garota se desculpou, andando rápido para se juntar ao grupo, se sentando do outro lado do garoto que havia me ajudado.
A roda de conversa começou, me deixando apavorada. Eu brincava com meus dedos, esperando que a minha vez de falar não chegasse. O garoto ao meu lado, que descobri se chamar Apolo, mas todos o chamavam de Pol, era o mais animado. Ele contou sobre sua semana e como estava feliz sendo um garoto transgênero que começou seu tratamento hormonal. Fiquei feliz por ele.
Se direcionando para mim, a doutora perguntou:
— Arizona, por que não nos conta um pouco sobre você? Nos diga algo de que gosta.
Senti meu rosto queimar quando os pares de olhos pousaram sobre mim.
— Planetas anões. — minha voz saiu falhada. Eu não queria me abrir, mas acho que partilhar essa pequena informação não teria problema.
— Isso é muito interessante. — a doutora sorriu, juntamente com Pol, que ainda me analisava.
Quando a sessão acabou, vesti meu casaco, pronta para ir embora, mas a doutora Abgail me chamou.
— Como foi a experiência? — ela perguntou, soando amigável.
— Legal. — forcei um sorriso.
— Espero te ver semana que vem.
Assenti, me despedindo e caminhando em direção a porta.
— Espera! — Pol disse, correndo para me alcançar. — Não quer comer alguma coisa?
Ele apontou para mesa atrás de si, com bolo, bolachas e pão. A garota que chegara atrasada tinha um copo de café em mãos e esboçou um sorriso na minha direção. Agradeci, mas disse que precisava ir para casa, pois minha mãe precisava de ajuda.
— A doutora Abby disse sobre você ser nova na cidade, sabe o caminho que precisa fazer? — a garota, que descobri se tratar de Lavínia, perguntou, se aproximando. Eu ri, mas fiz que sim.
Me despedi dos dois e deixei o prédio, sentindo o vento gélido chocar-se contra meu rosto. Coloquei meus fones de ouvido, deixando que a melodia calma de "Mystery Of Love" fosse a música de fundo para meus pensamentos.
Andei até a estação de metrô mais próxima. Eu matutava sobre o universo. Sobre como alguns planetas formam um sistema, mas eu sempre havia me sentido como plutão, o planeta anão, divergente, desconsiderado pela União Astronômica Internacional. Para ser considerado um planeta, existem três características que são essenciais. Inicialmente, o corpo celeste precisa estar em uma órbita em torno do Sol. Em segundo lugar, deve ser de formato esférico. E em terceiro e único quesito em que Plutão não se encaixa, deve consumir corpos que sejam menores do que ele ou jogá-los para longe com sua força gravitacional.
Plutão não é o único planeta anão, em nosso Sistema Solar, também temos Éris, Makemake, Ceres e Haumea. Portanto, do mesmo modo como Plutão conta com semelhantes, eu esperava descobrir que também poderia encontrar o sistema onde pudesse me encaixar.
Mara, se você fosse um planeta anão, para mim seria Haumea. Sua descoberta ficou envolvida em polêmica, pois duas equipes independentes diziam tê-lo encontrado. É envolto por um anel e conta com duas luas, que acredita-se serem fragmentos quebrados durante sua formação.
Na minha opinião, é lindo e curioso, como você. Sinto falta de seus olhos levemente puxados e seu cabelo tão preto, que me lembrava o oceano noturno, em contraste com a palidez de sua pele. Sei que nunca te enviarei essa carta, mas gosto de imaginar que você pensa em mim, assim como eu sempre penso em você.
Com todo o meu amor,
Ari.
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PLANETAS ANÕES TAMBÉM SÃO PLANETAS
RomanceTendo planetas anões como uma grande curiosidade, Arizona se identificava com Plutão, o planeta renegado pela União Astronômica Internacional. Embora não seja o único planeta anão, Ari sempre acreditou não obter a sorte de contar com semelhantes, co...