Capítulo VIII: Xeque-mate

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Caller colocou a arma e o recipiente com a amostra do café sobre a mesa, parecia indeciso, olhou para Harrison, o detetive assentiu com a cabeça, motivando-o.
- O fato do assassino ter deixado a arma cair é muito conveniente. Uma arma, com uma sigla, altamente incriminativa. Ao analisar bem essa personalização na arma, percebi que tinha sido colocada muito recentemente, a tinta das letras estava em perfeito estado, indicando que a arma possivelmente nunca foi usada, pelo menos não com aquela personalização. Havia excesso de cola nas bordas, era quase um trabalho bem feito. Mas não era nada profissional. O que nos levou a concluir que essa personalização, a sigla W&W, foi colocada exclusivamente para aquela ocasião.
- Masel foi esperto. Sabia que uma hora ou outra teria que fazer algo, até me matar, se preciso. Por isso deixou a arma de prontidão, para me silenciar e afastar qualquer suspeitas. Agora vamos para a segunda tentativa de assassinato. - Harrison sorriu.
Todos estavam de olhos esbugalhados, com uma leve tristeza em seus semblantes, ansiavam por verdade.
- Ao examinar essa amostra de café, encontrei algo além de cafeína. - John Caller levantou o recipiente à altura de seus olhos. - Escopolamina, cetamina, flunitrazepam e cicutoxina foram encontradas no café do pobre detetive. Harrison encostou apenas a ponta da língua e inalou o cheiro daquele "coquetel", e foi o suficiente para derrubá-lo. Escopolamina é uma substância utilizada para tratamento de espasmos gastrointestinais, renais e biliares, mas tem efeitos colaterais, como alucinações e delírios. Cetamina é uma substância utilizada como anestésico, analgésico e também no tratamento de depressão profunda. Flunitrazepam, mais um medicamento de uso controlado, essa substância é utilizada para diminuir crises de ansiedade e distúrbios do sono. Agora pasmem, cicutoxina, é uma substância altamente tóxica presente na planta cicuta, uma boa dose mataria um adulto facilmente. Todas essas substâncias juntas causam efeitos diversos, sonolência profunda principalmente, morte na pior das hipóteses.
- Você não estava mesmo para brincadeira, não é, Tyler? A polícia chegará em breve e você apodrecerá na prisão junto do seu tio Masel.
Agatha começou a chorar, gritou em desespero e se jogou aos pés do filho. Tyler também com lágrimas nos olhos, encarou sua mãe.
- Fui eu! Fui eu! Por favor, por favor, não faça nada ao meu filho, eu imploro! - Agatha gritava enquanto abraçava o seu filho fortemente.
- Disso eu sei. Reconhece essa receita médica? - Harrison tirou um papel de seu bolso. - Eu peguei essa receita quando você me mostrou todos aqueles remédios, é de um medicamento a base de uma das substâncias citadas por Caller. Vejo que o que disse é verdade, você tem variedades de remédios, só podia ser você a responsável por isso.
- Mas por que... por que ela tentaria te matar?- perguntou Sebastian em choque.
- Ela é uma canguru. - Harrison sorriu. - Fez tudo isso para proteger o seu filho. Ela usou Tyler para tentar me matar. Pois ninguém poderia saber a verdade, uma onda destruidora esmagaria a sua vida e a vida de quem ela ama. Agatha Thompson é a assassina de Mrs. Alice Millie Thompson!
Agatha abraçava seu filho com ainda mais força, soluçando sem parar. Emily olhou para a sua mãe, não conseguia acreditar, aquele curto espaço de tempo projetou dolorosas lembranças na garota, aquele vulto, aquela sombra negra no escuro, era a sua mãe, correndo, levando o peso de uma vida. Emily chorou profundamente, Violet abraçou-a, tentando consolá-la. Sebastian e Hugo pareciam incapazes de falar. Mas raiva estava presente em seus olhares.
- As dívidas de Tyler vinham aumentando gradativamente, o envolvimento dele com a W&W parecia perigoso, a vida de seu precioso filho estava em risco. Essas preocupações afetaram até mesmo sua saúde. Ela teria que fazer alguma coisa, foi aí que resolveu matar a sua já quase morta mãe, conseguir a herança e pagar as dívidas do filho. Tyler aparentava ser o maior suspeito, mas os fatos não batiam, ele não teria vantagens diretas com a morte de sua avó, ele não é um herdeiro. Agatha desde o momento em que cheguei nessa casa, demonstrava ter uma espécie de ressentimento para com Sebastian, indiferente a todo momento. Quando ela assassinou a própria mãe, levou acidentalmente o travesseiro, estava nervosa, como já sabemos. Ela desceu as escadas, se deu conta de que estava com o travesseiro em mãos, mas não podia voltar para reparar esse erro, então escondeu o travesseiro... na despensa, eu arriscaria dizer, bom, em algum canto ela guardou. Acredito que ela acabou esquecendo desse fato. Quando notifiquei a falta do travesseiro, Agatha lembrou-se do seu descuido e resolveu usar aquela oportunidade para incriminar a pessoa que ela odiava... Sebastian. Ela tentou direcionar minha atenção para ele, usando o testamento, que sim, privilegiava-o de certa forma, mas ele já estava inocentado, como já expliquei. Essa perseguição a Sebastian ficava cada vez mais evidente. Sebastian estava mais empenhado do que todos nessa investigação, acredito que isso irritou algumas pessoas. Ele recebeu uma ameaça, em certo momento fiquei em dúvida sobre quem teria sido o responsável, poderia ter sido Masel, ele corria risco. Mas a coisa ficou clara quando resolvi o caso. Me pergunto se você também mataria seu próprio irmão, aquele bilhete também estava carregado de ressentimentos. Agatha, então, decidiu partir para as vias de fato, provavelmente revelou tudo para Tyler e tramou a minha morte, ela sabia que eu estava me aproximando. A todo momento me esforcei em atacar Tyler para desestabiliza-la, funcionou perfeitamente. As coisas eram simples no final, ela fez tudo isso por amor e por egoísmo.
- Como você pôde, Agatha? - perguntou Sebastian amargamente.
- Cale a sua maldita boca! A culpa é de todos dessa maldita família, meu filho precisava de ajuda, nenhum de vocês fizeram nada, só criticavam. Diferentemente de mamãe, eu amo meus filhos, ela nunca me amou! Sempre, sempre era cuidadosa com vocês... - Agatha começou a gritar. - Mas comigo era diferente, sempre fria, impondo a mim responsabilidades. Eu sempre era cobrada, enquanto vocês se divertiam. As coisas só pioraram quando o papai morreu, ele era o único que me amava. - Agatha voltou-se para Emily. - Filha, por favor, me perdoe, eu te amo!
- Não encoste em mim! Você é um monstro! Eu não posso acreditar, isso é um pesadelo. - Emily se distanciou da mesa, encostou na parede e deslizou as costas na parede até cair no chão.
- Detetive David Harrison, eu imploro, não denuncie o meu filho. - Agatha ajoelhou-se aos pés de Harrison.
Harrison não direcionou o olhar para Agatha, como se estivesse declarando repúdio. Ele olhou para Emily, pela primeira vez todos notaram uma tristeza genuína no semblante do detetive. Inesperadamente, Sebastian suspendeu a mesa de forma brutal, revirando-a, derrubando tudo que tinha na mesa. Todos se afastaram olhando para ele com espanto. Ele começou a gritar.
- Papai! Papai, o que está acontecendo? - perguntou Dylan enquanto abraçava sua mãe.
- Meu amor, pare com isso, eu imploro! - suplicava Clara Lexi.
- Irmão, o que está fazendo? - perguntou Hugo preocupado.
Sebastian começou a quebrar tudo que via pela frente, chutou um busto de Napoleão Bonaparte que decorava a cozinha, que caiu, em pedaços. Agarrou-se as cortinas das janelas e começou a puxá-las. O telefone começou a tocar, Sebastian correu até ele e atirou-o com toda força na parede.
- Por Deus! Bom homem, você perdeu a sanidade? - disse Harrison atônito.
- Acalme-se, Sebastian... isso não é do seu feitio! - disse John Caller.
Sebastian escorou-se na cadeira de sua mãe, sua face estava vermelha ardendo em raiva, ficou parado por segundos, como se estivesse recuperando a calma. E o seu semblante foi mudando, lentamente, como se fosse uma tempestade passageira. Tristeza. Tristeza invadiu o seu coração, ele chorou silenciosamente na frente de todos. Finalmente se moveu, indo em direção as escadas. Clara Lexi correu ao seu encontro, mas foi impedida por Harrison.
- Senhora, deixe ele comigo. - Sebastian olhou para Caller. - Não deixe ninguém sair daqui.
Caller apenas assentiu.
Harrison subiu rapidamente as escadas, ele parecia saber onde Sebastian iria. Chegando à porta do quarto de Mrs. Alice Millie, lá estava Sebastian, parado, observando o quadro da família. Ele aproximou-se devagar, ainda podia notar raiva em Sebastian, mas não hesitou, conseguia sentir bondade no homem a sua frente.
- Sebastian, você não pode perder o controle agora.
- Masel fugiu. A justiça ainda não foi feita. - disse Sebastian friamente, ainda olhando para o quadro.
- Ah, esqueci desse detalhe. Ele já está preso. Notifiquei o chefe da Polícia de Londres quando fiz aquela ligação, enquanto esperávamos Caller. Ele foi pego em direção ao aeroporto, o covarde pretendia mesmo fugir. - disse Harrison serenamente.
- Incrível. - Sebastian sorriu. - E pensar que achei que você era apenas um louco, um charlatão. Você é um dos homens mais incríveis que já vi. Os gênios são luz, nesse mundo de trevas.
- Eu sinto muito por você. - disse Harrison benevolente.
- Eu não só perdi minha mãe, morreram para mim, também, dois irmãos.
- Eu sei como é perder alguém que ama. Mas não dessa forma.
- Mamãe me dizia que o único amor válido era o da família, pois naturalmente temos algo que nos conecta uns aos outros, o laço de sangue. Nem o ódio, nem a raiva, nem a distância, nem os tempos difíceis podem romper esse laço. Ela nos dizia isso quando brigávamos. Eu sempre gostei de ouvi-la, tinha sabedoria em cada palavra. Feliz é aquele que convive ou é criado por um sábio. Eu também tinha o papai, o homem mais nobre que já conheci. - As mãos de Sebastian começaram a tremer.
- A sua dor é incalculável.
- Olhe para esse quadro, um sorriso em cada rosto, não somos uma família. - Sebastian tirou o quadro da parede. - Essa será a última coisa que quebrarei.
Sebastian atirou o quadro no chão, danificando a moldura por completa.
- A vontade que tenho é de pagar a eles com a mesma moeda. - disse Sebastian com raiva.
- Você é um homem justo, Sebastian?
- Claro que sim.
- O que deseja fazer é digno de um justo?
- Sim. Pois é justiça.
- Se você é um homem justo, precisa praticar a justiça verdadeira, não a vingança. Se você, justo, prática algo mau para uma pessoa má, essa pessoa se tornará melhor ou pior?
- Pior. - respondeu Sebastian após pensar um pouco.
- É certo que o professor de matemática faça o aluno desaprender matemática? Faz sentido um musicista fazer com que o aluno se torne ainda mais leigo musicalmente? É certo que um guerreiro torne inapto o seu aluno no uso da espada? Poderia o justo contribuir para que o injusto, ou seja, a pessoa má, se torne ainda mais injusta e consequentemente, ainda mais má?
- Meu Deus! - Sebastian sorriu mais uma vez. - Então também é bom em filosofia? Entendo, desculpe-me.
- Obrigado, Platão! Você nunca me abandonou. - os dois riram.
- Vamos descer, precisamos dar um fim a isso. - disse Sebastian decididamente.
Os dois voltaram a sala de jantar.
Clara Lexi e Dylan ao avistarem Sebastian, foram ao seu encontro, e o abraçaram. Agatha estava sentada, olhando para baixo, em silêncio, com todos ao seu redor, mas mesmo assim, sozinha.
- Pensei no que disse, Agatha. Não denunciarei Tyler, claro, se todos os familiares estiverem de acordo. Acho que o rapaz merece uma segunda chance. - Harrison olhou ligeiramente para Tyler, depois para Emily. - E bom, alguém precisa cuidar da jovem Emily. No entanto, você terá que fazer algo em troca.
- O que preciso for! - disse Agatha firmemente.
- Terá que assumir todos os seus crimes para a polícia e abrir mão da herança, deixada por Mrs. Alice Millie, a mulher que você matou. O dinheiro será usado para pagar as dívidas de Tyler e o restante será de Emily. De acordo?
- Sim. Nada poderia ser melhor.
- Então, caso encerrado. A polícia já está chegando.
- É. Eu disse que ele era bom. - gabou-se Caller para Sebastian.
Harrison despediu-se de todos formalmente, após receber seu generoso pagamento.
- Provavelmente não nos veremos novamente, moça.
- O senh... digo, você tem razão, detetive David Harrison. - respondeu Emily.
- Seja forte, garota. Seja virtuosa como as grandes mulheres da história e apegue-se firmemente a verdade. Até logo!
Harrison saiu, sendo aplaudido com os olhos pela família. Mas para ele era só mais um dia comum, algo que ele sempre fazia, investigar, trazer luz aos outros.
- Ei, Harrison, me espere. - gritou Caller enquanto tentava acompanhar o detetive. - Não se esqueça, você me deve um cappuccino!
- Óh céus, que assistente inconveniente esse meu. Bom, promessa é promessa.
Eles partiram para a cafeteria mais próxima. Harrison acenou para um táxi, que parou, os dois entraram.
- O que fará agora? - perguntou Caller.
- O que farei? Vou torcer por mais diversão! Há mistérios por toda parte, fiel escudeiro.
- Eu quero oferecer-lhe os meus serviços. Ou melhor, a minha ajuda.
- Não pense que te pagarei mais comida! Ai, que dor de cabeça, preciso de café.
O táxi parou do outro lado da rua, os dois cruzavam a faixa de pedestre, quando subitamente um motoqueiro passou em alta velocidade, quase atropelando o detetive.
- Maldito seja, o que diabos tem na cabeça? - disse Harrison indignado.
- Harrison, cuidado! - gritou Caller.
Barulho de pneu freando. Uma pancada. Um viatura da polícia atropelou o detetive, jogando-o longe. Harrison caiu, esticado no chão. Caller correu ao encontro do amigo, lançou-se ao chão, rapidamente conferindo os seus batimentos cardíacos. O mundo estava girando para o detetive, o dia que estava claro, parecia agora escuro, Caller gritava, mas Harrison via apenas o abrir e fechar de sua boca. Tudo ficou escuro. Uma voz em sua cabeça.
- Pode me ouvir? - disse a menina feita de aurora.
- Onde estou? - o mundo ao redor de Harrison tinha se transformado, olhou ao seu redor e viu que tudo era familiar. O seu palácio mental.
- Você gosta mesmo de brincar de morrer, querido. - disse a menina feita de aurora.
- É força do hábito. - disse Harrison.
- Percebo. Estou sempre te acompanhando.
- Eu sinto sua falta. É difícil sem você, porque você está comigo o tempo todo. Onde está você, além de aqui, dentro de mim? - Harrison caiu de joelhos.
A menina feita de aurora flutuou em sua direção, ficando um pouco distante. Ela fez uma borboleta de aurora, que voou até pousar no nariz de Harrison. Quando Harrison a tocou, a borboleta se desfez. Ele rastejou até a garota, desesperadamente, tentando abraçá-la, mas cada vez que tocava-a, a garota desaparecia, surgindo em outro lugar.
- Pare, querido. - disse a menina feita de aurora.
- Não, não, não! Eu nunca vou me perdoar! Eu te amo, Sophia!
- David, eu também te amo e sempre te amarei. Eu prometi que estaria para sempre com você e aqui estou.
- Eu quero que tudo acabe. - disse Harrison de forma sombria.
- Ainda não. Você sabe que tem uma missão, você sempre tem uma missão, senhor McCoy.
A garota começou a se desmanchar, as paredes brancas se tornaram vermelhas como sangue, tudo naquele palácio se tornou sombrio. Harrison tentava agarrar cada partícula daquele ser, que te torturava, cada vez que sumia.
- Por um só vez, não se vá! Eu imploro, eu imploro!
- Eu voltarei, David, por você.
Harrison caiu em um buraco, tudo distanciou-se enquanto ele permanecia na inércia de sua queda livre. Ele abriu os olhos, de forma agressiva. Harrison acordou ofegante, suado, não conseguia se mover. Estava deitado em uma cama de hospital, com tubos de respiração, agulhas por todo o corpo, o terror de imobilidade aumentava com o barulho incessante dos aparelhos a sua volta.
"Ele acordou", Harrison escutou alguém dizer. Estava confuso, seus sentidos falhavam.
- Olá, senhor David McCoy Harrison. Sou o Dr. Luke. Por favor, peço que não se esforce, você foi atropelado. Teve muita sorte. O senhor Caller está a caminho.
Harrison dormiu novamente.
- É o efeito do sedativo. Logo passará. Fiquem de olho nele.
Caller chegou ao hospital, e foi diretamente ao quarto de Harrison. Ele sentou-se ao lado da cama e começou a observa-lo.
- É, grande amigo, você me preocupou dessa vez. É mesmo duro na queda.
- Ca.. ca... - Harrison tentou falar algo, assustando o pobre legista.
- Meu Deus! Não fale. Que bom que acordou, eu achei que o pior fosse acontecer. - disse Caller emocionado.
- Ca... agh... ca... - Harrison se esforçava.
- Ande, amigo. O que quer me dizer?
- Ca... fé. - disse finalmente Harrison.

Fim.

O assassino da invalidezOnde histórias criam vida. Descubra agora