Quando entramos no dormitório — que, diga-se de passagem, não é o que Timóteo me mostrou — somos aplaudidos pelos outros adolescentes. A maioria das palmas são entusiasmadas, mas, um pequeno grupo faz essa ação de forma forçada, como se tivesse sendo obrigado a tal. Às paredes são cheias de beliches, estimo que seja um dormitório que abrigue mais de 60 adolescentes. Bragi levanta a mão em punho, e às palmas cessam. Os meus "colegas" vão nos dando sorrisinhos solidários conforme passamos. O deus chega até o final do dormitório e estende a mão para a parede, em um movimento circular.
—É assim que vocês abrirão a porta, lembrem-se disso —diz.
Nós adentramos no ambiente, que, meu deus, é muito mais luxuoso que o dormitório anterior! Às paredes não são de pedra lisa, são de madeira, assim como o chão. Há um tapete persa, peludo e confortável. Só existem 3 camas, que tem mais de 10 metros de distância entre si.
Agora eu consigo visualizar bem o cajado e o escudo. O cajado tem o cabo preto, e, na ponta, um globo com nuvens dentro. O escudo têm às bordas azuis, meio acinzentadas, tal qual o globo de nuvens. Seu interior é preto e têm detalhes de ouro. Não é totalmente circular, têm cortes lisos no centro.
Além deles, há um cachorro. Não, é meu cachorro!
—Hermes! Quem te trouxe para cá, em? —pergunto, com a voz fina, acariciando o pelo do animal.
Hermes é um doberman, marrom escuro, com o peito claro. Seus olhos são brancos e suas orelhas são empinadas, sempre em alerta. Ele responde com um pequeno rosnado, sinal que ele sempre faz, e que diz "Pode continuar, estou gostando".
—Que lindo! É seu? —pergunta Clarisse, afagando Hermes.
—Costumava ser, quando meus "pais" não me impediam de vê-lo —respondo, sem tirar os olhos do Cajado.
Midas vem para perto de nós, prestando atenção na conversa.
—Você também tinha pais problemáticos? —pergunta, incrédula.
—Mais do que você consiga imaginar.
—Pelo menos eles não apontaram uma doze para o rosto de vocês — tranquiliza Midas.
Bom, não chegou a este ponto, na verdade. Por mais que com pais totalmente sem noção, fui uma criança privilegiada. Não tive uma infância pobre, o que é, pelo menos, um consolo.
—O que seus pais faziam, Sávio? —pergunta Midas, não dando abertura para falar sobre os seus próprios problemas.
—Me prendiam no meu quarto, não me davam roupas novas, não me permitiam chamá-los de "pais", me tratavam como um escravo, meus irmãos me desprezavam, e eu não tinha festas de aniversário —respondo, dando de ombros.
Eu sento na minha cama — que é mais confortável do que qualquer que eu já tenha usado — e os meus dois amigos — e os primeiros — acompanham o movimento. Eles não parecem se impressionar com a fala. Midas sofreu coisas piores, e Clarisse provavelmente também.
—E você? —pergunto, apontando a cabeça para a Clarisse.
—Eu sou um aborto que falhou. Minha mãe me jogou da janela com 1 semana de idade, mas, por sorte, não morri. Com 7 anos, meu pai me empurrou da sacada do quarto andar e fez parecer um acidente. Eu fraturei duas costelas, mas não morri. Aos 11 anos eu fui estuprada, engravidei e sofri um aborto espontâneo. Aos 13, minha mãe jogou óleo quente em mim —diz, mostrando às queimaduras no braço — e aos 15, semana passada, meu pai me deu 6 facadas. Foi quando Hel me trouxe para a Enfermaria, e às Curandeiras deram um jeito. Mas, bom, não adianta chorar pelo leite derramado! —fala, com entusiasmo.
Um silêncio constrangedor se instaura, sendo quebrado por uma batida na porta. Na porta não, pois não há porta. Por dentro, é só uma parede de madeira. Por fora, é só uma parede de concreto. Todavia, a batida é como se fosse uma batida normal.
Clarisse se levanta, e abre a porta com o movimento circular que o Deus nos ensinou. Um garoto, com 3 bandejas de comida, aparece.
—Eu vim trazer a comida de vocês, já que se atrasaram para o jantar —diz, enquanto analisa o nosso quarto —Meu deus, que cômodo incrível! Vocês têm até uma escrivaninha! E uma estante de livros! Meu deus, meu deus! —exclama animado, enquanto entrega às bandejas para nós.
Não o respondemos, todavia, ele sai animado, como se tivesse uma ótima novidade para contar.
—Meu deus, que comida é essa? Ervilha, vagem... Nós não somos cavalos? Quem, em sã consciência, gosta desse pasto? —pergunta Clarisse, tocando a comida com o garfo.
—Eu gosto —responde Midas, dando uma bocada nas ervilhas.
—Você só pode estar ficando louco —respondo, rejeitando os legumes e partindo direto para a carne.
—Eu já sou louco, bebê —retruca.
Caímos na risada. A risada de Midas é esganada, parecida com um grasnar de um corvo. A de Clarisse é delicada, fofa, e dá mais vontade de rir ainda. Tal qual como sua voz, que é doce e suave.
—Bom, mas, digam aí, o que vocês acham que vai acontecer amanhã? Algum desafio, alguma batalha? Aulas teóricas? Sério, eu estou com muito medo disso tudo. Quero dizer, até uns dias atrás eu estava enchendo balões para a festa da minha irmã! —questiono, com certa indignação.
—Bem, estou verdadeiramente ansiosa, pela primeira vez na vida, eu acho. Esse lugar é incrível! Tirando a comida. Mas, pensem nas possibilidades que teremos! Vocês já foram na biblioteca? É imensa! —exclama Clarisse, animada.
Na cama, depois de boas horas de conversa, penso que estou me encaixando. Tenho amigos legais, poderes legais, um cajado super foda, uma cama confortável e a sensação de pertencimento, que eu nunca tinha sentido antes, nem dentro da minha própria casa.
E ainda tem Clarisse, que é.... Perfeita. Ela gosta das mesmas coisas que eu, odeia às mesmas coisas que eu, ri das minhas piadas, têm uma personalidade arrebatadora, e, para completar, é linda.
Eu sinto, em algum corredor do meu coração, que esse é o lugar certo para mim. E o lugar para o qual nasci, pelo qual estava esperando até agora. Para qual fui destinado e para qual fui escolhido. Finalmente, estou em paz comigo mesmo.
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Um deus à sua porta
Ficção AdolescenteSávio, Clarisse e Midas são 3 adolescentes que tiveram infâncias problemáticas. Midgard, a terra dos humanos, apresenta sinais de um eminente Ragnarök, o fim do mundo. Os 3 adolescentes são convocados pelos deuses a fim de formar a Nova Era, um exér...