O leitor é um curioso que espia pela fresta de uma porta, pelo canto de uma janela, que se esconde atrás de um arbusto, procurando para observar, se envolver e se conectar com histórias reais ou absurdas. Agora, aqueles que passam por aqui conseguem...
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Ela chegou batento a porta.
O impulso aplicado na madeira, o barulho e o raciocínio que talvez a filha pudesse ter se machucado, juntaram-se, materializando-se em uma tremura que resultou em café espalhado sobre toda a bancada da cozinha.
- Maria, um dia você coloca essa casa abaixo! - gritou a mãe, já impaciente com as travessuras da menina.
- Mas mãe, a senhora não pode brigar comigo. Não enquanto me encontro nesse estado! - falou Maria, ofegante.
- Que estado, criatura? - foi então que a mãe olhou para a filha, que já havia sentado na cadeira mais próxima, os olhos cor de mel pareciam saltar do rosto da pequena e sua face não apresentava o tom bronzeado de sempre. - Maria? Maria, menina, o que aconteceu? - a mãe desesperou-se ao perceber a filha pálida, aos prantos.
A menina, como se desafiasse o desespero da mãe, gritou: - Estou perdida, mamãe! Completamente sem esperança.
Agora foi a vez dos olhos da mãe saltarem. "Afinal, o que levaria uma criança de nove anos a tamanho desespero?".
- Maria, tenha piedade dos meus nervos! Você vai me matar de angústia. Por favor, engula o choro e tente me explicar o que aconteceu. - falou a pobre da mãe, que nessa altura também já estava chorando.
- Mamãe, você lembra naquele dia que ganhei uma boneca de pano linda, que a vovó fez especialmente para mim? - disse Maria, enquanto diminuía o ritmo das lágrimas.
- Claro, meu bem, lembro! - falou a mãe, assentindo com a cabeça.
- Sabe porque gostei tanto dela, mamãe? - perguntou a menina, que olhava fixamente para a boca da mãe, como se aguardasse que dali saísse a resposta correta, como se a solução de sua agonia estivesse na frase que estava prestes a escutar.
- Foi porque sua vó fez o cabelinho da boneca cacheado, igual da Julieta, sua melhor amiga? Ah, acho que também pela cor do vestido que era azul e sua vó misturou com uma renda perolada. - Respondeu a mãe, confiante, mas ainda desconcertada com o comportamento da filha.
- Não, mãe! Não foi só por isso. - Então a menina retornou aos seus lamentos. - Estou perdida, ninguém nunca irá entender a dor que sinto em meu coração! - declarou Maria, que sempre manifestou um dom especial para o drama.
- Chega, Maria! - retrucou a mãe, já impaciente. - Não posso ajudá-la se você não dividir comigo suas dores. Certamente, há alguém no mundo que passe pelo mesmo!
- Assim, a senhora só piora a situação! Não quero que exista alguém no mundo igual a mim ou que passe pelo mesmo que eu. Será que nem minha dor é verdadeiramente minha? - externou a menina, em um tom tão sério e com um olhar tão profundo que assustou a mãe.
A mulher emudeceu. Então Maria continuou:
- Até minha boneca consegue ser especial e eu não, todos esses anos você e papai me enganavam, então hoje eu descobri: sou exatamente igual a todo mundo! É desesperador, mamãe! Um abismo interminável - declarou a menina, entre lágrimas e soluços.
A mãe de Maria, que nesse momento encontrava-se terrivelmente arrependida por deixar que o marido - um conceituado professor de filosofia - colocasse a menina para dormir, percebeu que sua intuição foi certa, porém imprecisa. Ora, ela sabia que trocar o nome dos personagens infantis pelo de filósofos conhecidos poderia despertar uma curiosidade na pequena, mas nunca esperou ter que conviver com uma miniatura de Nietzsche, sofrendo e questionando tudo a sua volta, tampouco imaginou que sua filha possuía um vocabulário tão rico e dramático.
Então, retornou a atenção para a criança, que continuava com suas críticas aguçadas:
- Sou regular! Preferia ser péssima, odiada por todo mundo, a ser tão comum! Hoje minha melhor amiga me confundiu com uma menina qualquer que estava no pátio da escola. Eu olhei, mãe, e sinceramente, a gente era bem igual, eu nem podia ficar com raiva da Julieta! Também, alguns minutos depois, o Pietro começou a recitar um poema tão bem, mas tão bem, que a professora ficou com a boca aberta até ele terminar, sendo que pensei que só eu sabia recitar assim. - Contou a menina, tão rápido, que a possibilidade dela se engasgar com alguma palavra parecia iminente.
- Eu sou só mais uma ... - suspirou a pequena criança, atordoada por aquela enxurrada de pessimismo. - Ainda tem algo a mais, aquilo que era para me diferenciar, a única coisa que deveria restar e não ser tomado de mim, meu nome, isso é o que tenho de mais comum! - confessou a menina, enquanto uma lágrima de ressentimento escorria pelo pequeno rostinho.
A mãe de Maria a abraçou gentilmente: - Oh, minha menina. Até pode ser que você se pareça comum, uma entre tantas Marias... Mas a tua história, meu amor, os teus pensamentos absurdos, os teus largos sorrisos, só tu tens. E, Maria, olha para mim - disse a mãe, direcionando gentilmente o rosto da pequena para si. - Mesmo que tudo teu seja igual a tudo de todos, enquanto confrontares a vida com essa intensidade, serás única. Tua voz revoltada é inconfundível, minha menina! - Disse a sábia mulher, enquanto acariciava os cabelos de Maria.
A pequena se aninhou ainda mais no abraço de sua genitora e a encarou, ainda incrédula: - A senhora fala isso só porque é minha mãe, né?
- Sim, minha filha, falo por ser sua mãe e por isso mesmo você deve acreditar em mim. Não posso me calar e te entregar a esse sofrimento, quando a única verdade que se impõe diante de mim é que tu és extraordinária, pequenina!
E as duas permaneceram no meio da sala, envolvidas num caloroso abraço. O susto que Maria dera em sua mãe resultou em algo lindo, em belos simbolismos. Ali, naquele ambiente, em que mãe e filha estavam entrelaçadas, foram vistos o amor e a insegurança em um raro ato de carinho, enquanto a experiência conversava com os questionamentos, acalmando um a um.
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"Sofrer e chorar significa viver" - Dostoiévski
Fonte das imagens: Pinterest
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