Capítulo 1

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Já não sentia a ponta dos dedos calejados pelas cordas desde os onze anos. A música tornou-se parte dela. Tocava por horas a fio e a necessidade
de parar diminuía a cada nota bem executada., mas O que mais a prendia era a sensação de ter seu pensamento elevado a Deus, pois não apenas tocava, mas usava seu dom para glorificá-lo.
Enquanto tocava na orquestra da igreja, fechava os olhos para sentir todos aqueles instrumentos em sincronia, engrandecendo o nome de Deus Pai e seu espírito se alegrava.
A hora do almoço se aproximava. Sabia disso porquê o aroma da comida entrava pelas frestas da porta. Colocou o instrumento em cima da cama para descer até a cozinha. Antes que abrisse a porta, alguém bateu.
⎯ A mãe está te chamando para descer, temos visita.
– disse rapidamente. Ao tentar fechar a porta, foi impedida pela irmã, que a puxou para dentro novamente.
⎯ Lara, diz que não é o Eduardo. – disse com  os olhos suplicantes.
⎯ Posso até dizer que não, mas estaria mentindo. A mãe está bem empolgada, os pais dele vieram junto.
– disse Lara, irmã de Sofia.

Lara mora no centro de São Paulo desde que se casou com Paulo. O namoro foi curto, o que assustou os pais dela. Era muito nova e teria que ir embora para longe, porém ambos estavam decididos, e tinham o consentimento de Deus. Para a irmã, foi difícil aceitar que perderia uma grande amiga.
Sofia se jogou na cama, a garganta ardia por segurar o choro, dobrou os joelhos para pedir sabedoria a Deus, não sabia o que fazer, dizer ou pensar, havia paralisado. Respirou fundo. Ao descer as escadas, ouviu uma conversa alegre que vinha da cozinha. Eduardo veio em sua direção, com um buquê na mão e um largo sorriso no rosto
⎯ Como você mudou. – disse ao entregar as  flores para ela e depositar um beijo em sua bochecha.
⎯ Você só não a viu por um mês, criatura! – disse Lara da sala de jantar. Paulo cutucou a esposa, envergonhado. Ele conhecia a mulher muito bem para saber quando algo a incomodava.
Sofia abafou o riso e agradeceu o carinho. Ele grudou nela para levá-la até onde os pais estavam. Cumprimentaram-se com muitos sorrisos. Aquelas quatro pessoas (seus pais e os de Eduardo) pareciam assustadoras juntas porque faziam parte da mesma conspiração: a união entre Eduardo e Sofia. O pior era insistir nessa história durante anos sem saber qual era a vontade de ambos os lados. Entretanto, apenas Sofia não queria, ou seja, era 5 x 1.
Lara observava tudo em silêncio. Sua vontade era tirar a irmã daquela situação tão embaraçosa, mas sabia que compraria uma bela briga com a mãe, Beatriz, quase nunca era contrariada.
A mesa estava posta, todos se reuniram ao redor dela para orar pelo alimento e pelas visitas. No decorrer do almoço, algumas indiretas rolaram entre eles, Sofia queria sair daquele lugar, pensando se nunca teria paz. Lara e ela apenas trocavam olhares cúmplices para não serem repreendidas na frente da visita, caso algum comentário saísse de maneira errada.
Beatriz pediu para Sofia tirar a mesa, enquanto eles foram para a sala conversar. Eduardo prontamente se ofereceu para ajudar. E tinha como negar? Não!
⎯ Ô sarna... – cochichou Lara para o marido, ele que balançou a cabeça negativamente.
⎯ Se controla, mulher!! – disse baixinho.

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