Vic pov
Já o sol ia alto quando aquela besta, vulgo, Kellin me puxou o cabelo para sair de cima do ombro dele, não sei como, mas acabámos por adormecer no sofá com a porcaria da televisão ligada. Eu nem me lembrava do nome do filme, era mesmo chato.
Vi o Kellin a ir até à cozinha, mas nem me dei ao trabalho de o avisar que as torneiras não funcionavam, ele iria descobrir sozinho.
Passaram dez, quinze, vinte minutos e ele ainda não tinha aparecido para confirmar o que eu já sabia por isso resolvi levantar-me e ir até à cozinha para ver o que se passava.
—Kellin? —chamei enquanto coçava os olhos. Nada, nem sinal do moreno de olhos claros. — Onde estás?
Pisei o chão da cozinha e as minhas Vans ficaram ensopadas. Espera aí? De onde é que vinha aquela água? Continuei a caminhar cautelosamente até à pia da louça e vi o corpo daquele idiota que tinha inundado a minha cozinha vá-se lá saber como.
—Consegui! Vic, já a pé? — ele coçou o cabelo molhado.
Se aquela não fosse a minha casa eu estaria a rir-me por ver o Kellin completamente encharcado debaixo de um lava louça, mas estava era preocupado e cheio de sono por não saber o que ele tinha feito com a canalização da minha casa. Só vi que tinha um pedaço de tubo numa das mãos e uma chave de grifo na outra. Pelo menos, havia água.
Eu não tive sequer coragem de dizer fosse o que fosse até ele se começar a rir e eu, vá-se lá saber como e porquê, talvez pelo desespero, o imitei.
—Já tens água em casa ...
Ajudei-o a levantar-se e fui procurar uma toalha ou algo do género que o antigo dono se tivesse esquecido para que o Kellin de secasse. (Era nunca que ele ia sujar uma das minhas camisolas limpas e passadas a ferro!) Acabei por encontrar uma, menos mal, e atirei-a à cara do Kellin.
—E desde quando é que és canalizador?
—Desde que —Kellin secou-se e atirou-me a toalha de volta — eu tive de arranjar dinheiro para vir para os EUA e tive de aprender alguma coisa. Um gajo desenrasca-se, não é?
As vantagens de comprar uma casa com mobília é que se encontram sempre objetos pequenos como canecas, toalhas, produtos de higiene e até algumas coisas de valor que os antigos donos se esqueceram. Para mim, foram as canecas e as toalhas porque eu já tinha encomendado alguns itens para a casa como os pratos, copos, talheres, roupa de cama e tudo o mais que a minha mãe me chateou para encomendar quando lhe disse que ia comprar uma casa... julgo que ela encomendou mais coisas do que eu, mas a conta ia cair no meu nome.
—Ok, eu faço o pequeno almoço, deves estar cansado — fui até ao fogão e liguei um dos bicos enquanto o Kellin perguntava se lhe emprestava uma camisola seca. Eu teria de sacrificar uma das minhas camisolas.— Claro, vai até ao quarto. Devo ter alguma coisa no armário ou na mala ou... sei lá, procura.
Kellin foi até aos quartos e voltou pouco depois de tronco nu com uma camisola dos Sleeping Whit Sirens nas mãos.
— Parece mesmo nome de banda, a camisola é bem gira.
—Acho um nome um bocado estúpido, mas pronto. Só achei piada à camisola. Leite ou açúcar?
Kellin vestiu a camisola e sentou-se à mesa enquanto eu punha o café em duas canecas que tinha encontrado, uma delas com dois ursos polares de tutu cor de rosa que dei ao Kellin.
—Os dois. Parece que tenho direito a pequeno almoço depois do trabalho árduo. Quando é que me pagas?
Dei-lhe a caneca dos ursos e peguei na outra para mim, que tinha um fantasma. Queimei-me a pegar nas torradas e ele começou a rir-se e engasgou-se no café. Não lhe dei importância e ele ficou chateado, o karma é uma coisa complicada...
—Eu podia ter morrido!
—Mas não morreste. Queres uma?
—Não tenho fome— ele recusou com um aceno de cabeça.— Como qualquer coisa quando chegar ao estúdio.
—Estúdio?— mexi o meu café com uma colher perdida pela mesa. Ele trabalhava num estúdio? Como assim? Desde quando?
— Fotografia. Sou assistente de um fotógrafo e hoje vamos para um casamento. Acho piada a casamentos, todos querem ficar tão bem que parecem palhaços, mas tu não deves querer saber disso e eu não te vou deixar sozinho. Onde é que trabalhas mesmo?
— Numa agência funerária— revirei os olhos.— Um emprego muito alegre, como podes imaginar.
—Então e aquilo?
Kellin apontou com a caneca para a guitarra que estava encostada à parede e suspirei, sabia que não a devia ter trazido, era uma prenda da Carol, de quando éramos namorados e ela descobriu que eu tocava.
—Um hobby. Desde quando é que um gajo consegue sobreviver só com uma guitarra na mão? É ridículo.
—Uns poucos sortudos. Mas não nós, como é óbvio.
Sempre sonhei ser guitarrista profissional e , quando nos conhecemos, mais ou menos na época do fim do secundário, o Kellin queria ser pianista, mas nenhum conseguiu nada disso. ( Ele era um péssimo pianista, já agora.) Até pensámos criar uma banda, fazer digressões e que as pessoas se matassem umas às outras por uma foto ou um autógrafo, e que tivéssemos quem quiséssemos e andássemos naqueles carros caros com mulheres bonitas e que olhavam mais para a nossa carteira do que para a nossa cara, mas o máximo que tínhamos era uma música escrita numa tarde em que devíamos estar a estudar e dissemos que aquele era o primeiro passo para o sucesso. Pena já não ser um adolescente sonhador.
Pena nunca ter sido um rei por um dia, um que fosse.
—Bem, olha, eu vou andando. Queres boleia para algum lado?
Peguei nas canecas e pu-las no lava louça. Boleia? Eu não conhecia nada de Diamond's Edge e não tinha planos, por isso...
—Ok. Um bocado de sol vai-me fazer bem e hoje não está a chover .
Kellin deu uma pequena risada e encolheu os ombros, a última coisa que me interessava era para onde íamos desde que ele não me abandonasse num canto. Vi as horas mais por curiosidade do que por necessidade: dez e vinte, era cedo.
Pelo que eu tinha percebido na conversa com o Kellin, o estúdio de Fotografia era bastante longe, e o casamento ainda era mais, mas ainda era relativamente cedo porque ele ia ser à tarde, pelas quatro ou cinco e era meia hora a carregar máquinas e tripés de um lado para o outro.
Percebi a situação económica do Kellin quando subi para a carrinha dele, uma Picasso C4 com quinze anos, parecia que nenhum de nós estava em grande condições económicas. Ele ligou o rádio e começou a tocar uma música dos Twenty One Pilots muito a propósito. (Car radio)
—É aqui.
Kellin estacionou à frente de um prédio branco, igual a todos os outros da mesma rua.
—Aqui, o quê?
Ele riu-se. Notava-se a léguas que eu era um estrangeiro naquela cidade. À frente desse prédio estava uma pastelaria/ padaria com gelados do lado de fora, não se conseguia perceber bem porque aquilo tinha de tudo, praticamente.
—É ali o meu pequeno almoço. As raparigas que lá trabalham são muito simpáticas... E bonitas, também.
—Sr. Quinn, o que é que anda a fazer?
Olhei para o Kellin com as mãos na cintura e em ar de desafio e ele limitou-se a rir como uma foca e guiou-me até à entrada da "Pastelaria". A Katelynn não iria gostar nada de o ouvir falar assim das raparigas, pelo que me lembrava dela, ela era bastante ciumenta e não queria que ninguém se aproximasse do Kellin, nem eu. Revirei os olhos mentalmente, muitas dores de cabeça essa mulher me tinha dado...
—É melhor veres por ti próprio.><><><><><><><><><><><><><><><><
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Padrinho
Fanfic"Ainda tinha a faca na mão e o sangue a escorrer pelos meus braços enquanto o corpo inanimado estava à minha frente." . . . . A última versão da obra infelizmente foi apagada, por isso, apresento a nova e melhorada versão de "Padrinho"... Em revisão...