Você não sabe que dia é hoje. Não sabe seu nome, nem mesmo quem você é. A única coisa que você sabe é que você precisa fugir, e correr o mais rápido que puder.
Os laboratórios Shadow's Corporation, num anseio por novas descobertas , não...
Sento-me no chão úmido, embaixo de uma árvore. As generosas pinceladas de um tom claro de dourado presentes no céu anunciam que o amanhecer está próximo. À minha frente, correm as águas de um estreito riacho. Vou até ele, sedenta. O gosto da água não é dos melhores, mas é o suficiente para matar minha sede. Paro por um momento e encaro meu reflexo distorcido.
Um corpo magro coberto por um macacão preto, de tecido grosso e bem resistente, porém desgastado. Cabelos longos presos em uma trança com vários fios soltos. Meu rosto carrega feições proeminentes, olhos negros inexpressivos, e a pele pálida, evidenciando pequenas olheiras que já surgem após a ausência de algumas boas noites de descanso.
Estou faminta. Após uma longa procura, avisto pássaros comendo pequenas frutinhas negras em um arbusto. Me aproximo e colho várias delas, deduzindo que não são venenosas. Azedas ao extremo, servem como uma boa refeição para meu estômago vazio.
Hoje se completam 8 dias desde a minha fuga. Continuo sem saber onde estou. A floresta continua densa, o que atrapalha bastante meu senso de direção. Espero conseguir sair daqui logo, apesar de me perguntar o que encontrarei a seguir, já que não me lembro bem de como eram as coisas antes da minha captura.
A maior parte das minhas memórias foram 'deletadas' assim que cheguei na Casa. Nenhuma criança merecia passar pelo que passei. Esta é a única informação que guardo sobre mim.
Estávamos todos reunidos para um jantar, em que eu completava 10 anos. A ocasião tão agradável foi logo substituída pelo caos. Tentei me afastar daquilo, talvez me esconder, escapar de toda aquela confusão, mas não fui rápida o bastante. Eles me pegaram, e não pude sequer saber o que houve com os outros. Me senti covarde por tê-los abandonado, mas não por muito tempo.
Após as primeiras torturas psicológicas, toda e qualquer emoção que ainda restasse desapareceu. Fui dominada por Eles. Comecei a me tornar, consequentemente, uma refém do ódio. Eles me tiraram tudo. Perdi minha família, meus amigos, minha infância, minha chance de ter uma vida normal! Qualquer conhecimento foi apagado, levado de mim, talvez para sempre.
Apesar de todos os meus esforços em busca de detalhes sobre mim, talvez perdidos no meu subconsciente, me deparo sempre com o mesmo vazio. Isso apenas alimenta minha necessidade de saber quem sou.
Esta é minha prioridade no momento, custe o que custar.
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A escuridão da noite torna a floresta sombria.
Pequenos roedores arriscam suas vidas saindo em busca de alimento, atraindo predadores atentos. O estridente chirriar de uma coruja me causa arrepios, e começo a cogitar a ideia de procurar um abrigo. Mesmo sob a fraca luz da lua, continuo caminhando com passadas leves e rápidas, o sibilar de uma serpente me deixando em estado de alerta. As árvores começam a ficar menos densas, e uma pequena clareira se estende à frente.
Sento-me num galho do que um dia foi uma árvore gigantesca. Olho para o céu estrelado, admirando-o. Tento relaxar, porém um barulho estranho e pesado vindo da direção da floresta chama minha atenção. Arrependo-me por estar tão vunerável. O som se repete, mais perto de mim. Olho ao meu redor, tentando identificar sua origem. A adrenalina corre em minhas veias, o medo do desconhecido me assombra.
Seja o que for, a criatura começa a correr. Tento controlar minha respiração e evitar o pânico. Sou surpreendida quando vejo uma figura humana vindo em minha direção. Disparo para a floresta. Impossível. Eles não podem ter me seguido até aqui. Não posso ser pega novamente. Corro o mais rápido que posso, mas não parece ser suficiente. O perseguidor está me alcançando. Tento aumentar a distância entre nós, em vão. Ele está cada vez mais perto, fazendo com que eu me sinta encurralada. Lágrimas escorrem pelo meu rosto. Acabo desabando no chão, graças à visão embaçada.
- Não, por favor, não! - grito com todas as minhas forças, tentando me colocar de pé.
O perseguidor diminui o ritmo até parar na minha frente. Ele começa a retirar sua máscara, e reconheço aquele rosto imediatamente. O homem é um dos médicos da Shadow's Corporation. Grito aterrorizada e tento me afastar. Ele apenas se ajoelha e me encara, com um olhar de pena.
- Se acalme - diz, num tom bondoso - não estou aqui para te machucar.
Ele se levanta e estende a mão na minha direção. Me retraio, desconfiada.
- Venha, não precisa se preocupar - ele toca meu braço gentilmente - estamos na mesma situação. Venha comigo e explicarei tudo.
Na mesma situação? Como seria possível? Aceito a ajuda, me levantando devagar. Minhas mãos ainda estão trêmulas, a boca seca.
- Preciso de água - digo, com a voz rouca.
Ele pega um cantil em seu bolso e estende para mim. A água fresca alivia a dor na garganta imediatamente.
- Quem é você? - pergunto assim que me recupero.
- Meu nome é Lawrence. Acredito que já deva me conhecer - assinto com a cabeça, e ele prossegue - Um milhão de perguntas devem estar rondando sua mente, mas preciso que tenha paciência. Precisamos descansar. Vamos, conheço um bom lugar.
Algo nele é diferente, gera confiança. Decido acompanhá-lo. Minha necessidade por respostas será suprida, em breve.