Capítulo 9| parte 1

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18 de abril de 2013

       
       Não consegui dormir. Não que meu sono tivesse sido regado de pesadelos, afinal fazem cincos anos que não me dou o luxo de ter pesadelos — ou qualquer tipo de sonho. Abri os olhos devagar, conseguia ver através da janela que ainda estava escuro lá fora. Afastei o edredom e forcei meu corpo, levantando bruscamente junto da vertigem. Minha mão fria passeou até minha nuca enviando um arrepio bom em minha coluna. Pisquei diversas vezes e por fim me declarei acordada.

Não havia pregado o olho na noite anterior, estava assustada demais, nervosa demais e ao mesmo tempo consciente. Ontem, enquanto nós jantávamos e jogávamos conversa fora, Ícaro entrou em casa sem fôlego, trazia em mãos um jornal — uma das poucas coisas as quais temos acesso, celular, computador e internet eram proibidos. Para não ficarmos impressionados, explicava Rosângela   — e nele, na primeira página, como manchete principal, estava escrito: Mais um hotel da Warrior Company  foi atacado. Logo abaixo jazia uma imagem colorida do tal hotel, em Copacabana, Rio de Janeiro.

Felizmente, o esquadrão de bombas conseguiu desarmar a ameaça antes de qualquer acontecimento letal, e com letal quero dizer mortes. Havia acontecido da mesma forma que há  cinco anos atrás. Alguém não identificado fez uma ligação e alertou que tinha uma bomba, gerando o terror e o medo. O que se difere do ataque recente ao meu é que ninguém morreu ou teve a vida roubada.

Mas, e talvez seja egoísta da minha parte, o que fez cada célula de meu corpo estremecer foi: aquilo tinha sido um aviso. Os terroristas haviam conseguido transmitir sua mensagem, que poderia ser traduzida para: Ainda estamos caçando vocês. Era uma certeza, a própria polícia havia levantado a hipótese de ser o mesmo grupo.

Afastei esses pensamentos e me distanciei da cama sentindo-me pesada e devagar, apoiei na parede e segui até a porta. Não poderia deixar isso afetar meu dia. Assim, respirei fundo e agradeci por mais um dia na vida que me deram

Depois de tomar banho, colocar a blusa de farda e enfiar o material na mochila, saí do quarto e caminhei preguiçosamente pelo corredor escuro da casa, parando sem perceber em frente a uma porta específica. Encostei a mão na madeira gélida e mordi os lábios enquanto empurrava a porta levemente, com receio que a pequena acordasse.

Espiei pela fresta que fiz e encontrei Geórgia encolhida em sua cama, abraçada a um travesseiro, o rosto em uma serena expressão e o cabelo ruivo escondendo seus olhos fechados. Parecia até uma anjinho dormindo. Sorri e fechei sua porta com cuidado e voltei meu trajeto até a cozinha.

Isabel estava jogada no sofá, usando suas habituais roupas pretas — símbolo de seu luto eterno — um braço sobre a cabeça, formando um travesseiro improvisado e a mão livre passeando sobre o abdómen. Coloquei a mochila no chão ao seu lado, dei uma passada rápida na cozinha, pegando o depósito onde Alice colocava meu lanche diariamente. O depósito estava localizado ao lado de um prato cheio de torradas, peguei uma e enfiei na boca e voltei a sala.

   — Estou morrendo, Florence! — gemeu Isabel, retirando a mão do abdómen e dirigindo o olhar para mim. Seu semblante estava contorcido em dor.

Revirei os olhos e terminei a torrada em três mordidas, em seguida limpei as migalhas que caíram em minha calça. Isabel morria todo mês, o drama com o qual ela lidava com a menstruação chegava a ter certa graça no primeiro dia, mas se tornava insuportável nos demais quatro dias de seu ciclo.

   — Quer algum analgésico? — Ofereci, indo até o espelho ao lado do sofá, tentando dar um jeito em meus cachos rebeldes.

   — Não, já tomei!

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