20 de abril de 2013/ noite
Lídia escondeu seu sorriso atrás de uma prancheta quando Osório sentou ao seu lado. Ele, sem pedir licença, mexeu no monitor e mostrou as imagens de Florence derramando o remédio de Geórgia. A doutora se aproximou da tela e mudou as imagens novamente, colocando de volta a cena dos sete reunidos na sala, cantando em uníssono Giz da banda Legião Urbana.Lídia sentia fascínio sempre que os via assim, juntos, sorrindo apesar de tudo. Sentia ainda mais admiração ao ver os olhos de Florence, tão verdadeiros e brilhantes, tão diferente das órbitas vazias com as quais ela passava maior parte do tempo. Osório resmungou.
— O que disse?
— Estava me perguntando quanto tempo isso vai durar! — Ele se explicou, o olhar atento às crianças. A sala estava vazia, era tarde da noite, os outros já estavam dormindo.
— Mais cinco anos.
— Não me refiro a pesquisa, e sim, a amizade deles.
— Para sempre!
— Não seja ingênua, as relações humanas são fundadas com interesses pessoais, quando a pesquisa acabar, eles vão se separar já que não precisarão mais um dos outros.
— Maquiavel pensava assim, não?
— Sim e eu concordo com ele.
Não era de hoje que eles viam tendo esse tipo de conversa, levantando hipóteses sobre o pós-pesquisa. Todavia, aquela era uma discussão reservada somente aos dois, os outros estavam mais focados no desequilíbrio hormonal e a depressão instalada nos jovens.
— Gosto do pensamento aristotélico, ele dizia que as relações humanas poderiam sim ser verdadeiras. Gosto disso — afirmou Lídia, mantendo a calma na voz e os olhos no monitor.
— Veremos!
— Quer apostar? — Se dirigiu a Osório, como se o visse pela primeira vez. Ele franziu o cenho e mordeu o lábio inferior. Uma aposta em meio o caos que causamos? pensou. — Está com medo de perder?
— O que o perdedor terá que fazer?
— Pagar um jantar, no restaurante mais caro, para o perdedor. — Osório podia jurar que Lídia estava flertando, com aquele sorrisinho provocador e o travesso brilho nos olhos. Assentiu devagar e estendeu a mão e ela fez o mesmo.
— Está apostado!
— Nessa semana Florence esteve muito estressada. — Mudou de assunto, remexendo em sua mesa até encontrar o relatório do dia anterior e entregar ao colega. — Veja, olhe como o coração dela estava acelerado e a pressão arterial elevada! Está afetando o sistema imunológico, do jeito que ela está ultimamente, uma simples gripe pode derrubá-la.
As câmeras instaladas na casa continham uma tecnologia especial. Através delas era possível fazer uma leitura dos batimentos cardíacos e atividade cerebral. Esse tipo de tecnologia pedia muita papelada e vinha direto da China. Por sorte, Lídia tinha um conhecido que conseguira trazer o material sem muito esforço. Uma dádiva.
Osório avaliou cuidadosamente a papelada em suas mãos, sem conseguir esconder o medo que lhe atingia sempre que Lídia falava de Florence. A garota era de longe a favorita da cientista, aquela que ela apostava os melhores resultados.
— Se você não pedisse para Rosângela ficar incentivando a menina a ser forte pelos outros, ela não estaria tão sobrecarregada. Ela está cansada, minha querida. Basicamente é quem suporta tudo de todo mundo.
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Se Essa Vida Fosse Minha
Mystery / ThrillerFlorence Campos tinha como objetivo primordial se divertir e aproveitar todas as atrações do novo hotel da Warrior Company, mas um suposto ataque terrorista pode levar seus planos por água abaixo e mudar sua vida para sempre. Sendo forçada a se sepa...