"Eu vou enviar-lhe as minhas palavras,
dos cantos secretos do meu coração.
E, embora eu as escreva à luz do dia,
por favor, as leia sob a luz da lua."
(Gregory Alan Isakov)💫
Havia algo de peculiar naquela noite.
Meus olhos bem acostumados a encontrá-lo mesmo numa multidão tão grande de pessoas assistiram enquanto ele caminhava como se fosse a primeira vez. No coração, eu guardava uma ternura sensível aos detalhes celestiais, um pequeno sentimento enciumado pelas noites que se faziam as mais belas somente para o meu garoto brilhante. Um olhar em direção à imensidão azul, o céu se revelava cintilante ao contemplá-lo com devoção, e as estrelas, todas elas, se aglomeravam em pequenas constelações na ponta de seus dedos. O suéter verde-escuro que ele usava também vestia minhas lembranças mais antigas, um sorriso gentil esquecido nos lábios, a brisa que tão lentamente desejava tocar seus cabelos, como se para descobrir se ele era mesmo real. Eu soube que, se ao menos por um momento aquela brisa primaveril pudesse encontrar o caminho até seu coração repleto de pureza, jamais se voltaria para outro lugar. E, sem me mover o mínimo que fosse, eu também me tornava parte do cenário que se dispunha a gravitar ao seu redor.
Quando ele me encontrou, um sorriso pincelava no seu rosto bonito como o amanhecer, e caminhou mais rapidamente. Desejei que as palavras que cruzavam meu pensamento como estrelas cadentes pudessem alcançá-lo ali; não olhe adiante, querido, apenas corra para mim. Cada passo encontrará o próximo e, antes que perceba, seremos apenas nós outra vez. Ele gentilmente tocou com os dedos seus próprios lábios, numa tentativa de encobrir seus sorrisos bobos e as palavras que ainda não haviam me sido confessadas, não sabendo ele que todas poderiam ser lidas em seus olhos inocentes. E, quando finalmente me alcançou, gostei de descobrir que preservava suas velhas e bobas manias. Sorria tanto em sua timidez, embaraçou-se em suas longas pernas inquietas, estendeu uma mão trêmula para me cumprimentar, enquanto a outra mão se ocupava em arrumar os cabelos que eram levados pela ventania.
O brilho de uma lua cheia atravessou as falhas de uma árvore, desenhando sombras indefinidas sobre ele. Eu me desviei da sua mão estendida, depois de olhar por um longo tempo para a sua desconcentração e ansiedade ao aguardar, e meus braços finalmente envolveram ele. Meu nariz se aproximou de seu pescoço em contato à sua pele morna, minha cabeça se recostou em seu ombro e existia algo nas palavras ditas à surdina do ouvido que carregavam toda a beleza do breve instante, e de sentimentos eternos. "Senti sua falta", eu me ouvi confessar uma única vez, embora naquele momento minha voz tenha ressoado em meu interior como um disco tantas vezes repetido ao decorrer dos dias. "Senti sua falta, senti sua falta, senti sua falta..." E a confissão ainda prosseguia tocando por mais vezes do que eu poderia contar.
As horas não se passavam devagar. Enquanto caminhávamos pela troca de palavras e sorrisos, não deixava de me perguntar se os lugares que visitamos se lembrariam de nós. Se as ruas pelas quais caminhamos com nossas mãos timidamente unidas reuniriam versos secretos numa poesia intitulada pelos nossos nomes, bem como eu poderia escrever por longos anos sobre a luz perto do relógio da igreja, ou sobre o amor em meus olhos que não pode se conter, na calçada da floricultura, onde ele para sempre existiria numa memória que se enfeitava de orquídeas-violeta. Às vezes, eu gostaria de entregar respostas às dúvidas do coração numa voz doce e sonhadora, e dizer que éramos eternidade num só segundo. E o amor se lembraria de nós, ainda que ele o esquecesse. No entanto, as horas não se passavam devagar. E, embora caminhar num mesmo passo que o seu sem direção alguma nunca se tornasse cansativo, avistei um banco de praça a poucos passos, para onde o convidei. A manhã tão delicada e coberta de nuvens logo surgiria ao horizonte, e eu precisaria me lembrar que os dias também se passavam na sua ausência. Seu braço tomou um impulso delicado e se colocou sobre os meus ombros num gesto acolhedor, o rubor em sua face tornava aqueles momentos impossíveis de se segurar um sorriso. "Me conte sobre você, anjo", eu pedi, segurando entre os dedos o tecido do seu suéter verde-escuro. "Me conte tudo sobre você."

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Se eu tivesse um par de asas.
Short StoryÀs vezes eu penso que não deveria publicar estas palavras, nascidas impetuosa e unicamente para encontrarem teus ouvidos ao cair da noite. Às vezes eu penso que não deveria estar contando essa história, porque eu não posso torná-lo grandioso ao pape...