– Vamos tentar ir em linha reta e deixaremos sinalizações por onde passarmos, assim não há risco de não sabermos o caminho de volta. E, por enquanto, voltaremos antes do anoitecer. Não vou perder minhas duas bolas em um matagal desconhecido, garoto. – Concordei com o resmungo do capitão, juntamos algumas providências e equipamentos que poderíamos precisar na exploração e adentramos a floresta a nossa frente, deixando o conforto do nosso precário acampamento para trás.
A selva, aparentemente inexplorada, era incrível. A flora desconhecida, o canto silvestre de animais ainda por serem descobertos. Tantas informações a serem aprendidas e retiradas dali. Após uma longa caminhada que poderia facilmente ser definida em horas, passamos por um pequeno riacho onde paramos para beber um pouco de água e reabastecer nossos cantis. Bem, mais ou menos, o capitão meio que tomou a frente nesse quesito.
– Vocês beiram ao delírio por acharem que podem beber dessa água sem que haja consequências! Você aí! Indigno! – Bradou apontando para um de seus lacaios. – Beba dois goles dessa água e fique quieto. – O pobre marujo obedeceu e esperamos... Eu sei lá o quê que fosse acontecer. Mas nada aconteceu. Vendo isso, o capitão ordenou que ele bebesse mais dois goles. Ficamos nesse experimento por uma hora. Quando o capitão, não sei dizer se satisfeito ou não de seu homem não ter morrido, decidiu que a água era potável e seu consumo seguro, só então partimos. Talvez se essa exploração da água não tivesse demorado tanto, nosso destino fosse diferente.
Os raios de sol penetravam avermelhados entre as copas das árvores e a orquestra dos animais da floresta ficava cada vez mais silenciosa com a chegada do anoitecer.
– Bem, já é hora de pegar o caminho de volta... – Começou o capitão, mas ao se virar notou que o responsável pela marcação do nosso percurso não estava mais no fundo da fila. – Mas que diab... – A fala foi interrompida quando uma lança silenciosa cravou-se na cabeça de um dos marujos. Foram segundos de silêncio até a ficha cair do que tinha acabado de acontecer. O pobre homem diminuto caído no chão mergulhado em seu próprio sangue. O silêncio foi quebrado por um rosnado baixo, indignado, orgulhoso e que apesar de proferido sem palavras, significava morte.
– Eita. – O pior da situação era ninguém ter reação nenhuma, eu fiquei entre curioso e congelado de, não sei, talvez medo. Não, não era medo. Era só curiosidade, um explorador não sente medo. Mas sabe o que era mais bizarro?! Os malditos Minions! Em vez de correrem feito loucos temendo por suas vidas eles, simplesmente, olharam para seu capitão e aguardaram ordens! Quem, em nome dos maiores mistérios, em uma situação de perigo vital vai se atentar a isso?! Aparentemente eles tinham mais medo de seu capitão do que de qualquer fera desconhecida.
– Ér... Pessoal... Vocês não vão correr não?! – O capitão riu com minha pergunta, colocando outro charuto entre os lábios e desembainhando sua espada curva.
– Um pirata não corre das ameaças, garoto. – Seu tom brincalhão desapareceu junto com a risada e um sorriso letal surgiu sob a barba quando ele proferiu quase em um sussurro: – Ele é a ameaça.
E da semipenumbra uma mulher surgiu. Uma maravilha de mulher que vestia apenas retalhos do que parecia ser pele de algum animal, seu corpo esguio unia-se à paisagem como se toda ela a pertencesse. Seus olhos selvagens vacilavam entre estudar o capitão e a mim enquanto ela se aproximava devagar, os pés descalços sem fazer qualquer ruído em seu desfile entre as árvores. O sorriso brincalhão voltou aos lábio do capitão enquanto ele inspecionava o corpo da jovem misteriosa, a fumaça do charuto escapando de seus lábios entreabertos.
– Sabe, mulher... Eu não sobrevivi incontáveis anos nas águas de Sentina sob o canto de um bando de sereias e criaturas cruéis do fundo do mar, para me deixar enganar pelo corpo esguio de uma nativa qualquer. – Ela o olhou como se seu olhar pudesse furá-lo, como se aquele olhar fosse a própria lança fincada na cabeça do pobre infeliz morto. Não sei se ela entendeu o que o capitão disse, mas a fala é muito mais do que palavras, não é? E a entonação do homem não era das mais amigáveis.
Ela sorriu. Era um sorriso manso, para alguém com uma aparência tão selvagem. Um sorriso branco que contrastava com a pele bronzeada feito cobre e com aqueles cabelos, presos em um rabo-de-cavalo, tão negros quanto uma noite sem luar e que caíam como uma cascata de escuridão sobre suas costas nuas. O verde de seus olhos parecia ter sido roubado da vegetação pura da floresta. Foi coisa de um segundo, em um momento a mulher estava em nossa frente, orgulhosa, impetuosa e desafiadora e, de repente, sua forma modificou-se completamente. Foi um choque, sua mudança nos deixou ainda mais surpresos e dessa vez notei um vislumbre de medo passar pelo rosto do capitão.
Em nossa frente havia somente uma fera enorme que, antes de qualquer possível reação nossa, abocanhou um dos homens e abateu outros dois com suas garras afiadas. Quatro vidas tiradas por uma mulher-felina.
– Ao ataque, homens! – Bradou o capitão, a fera gingou e saltou para longe, ao aterrissar era novamente uma mulher, seus movimentos tão rápidos que já estava com lança novamente na mão. O capitão tirou a pistola do coldre e disparou, sua bala acertando o ombro da nativa, para sorte dele, pois o impacto do tiro em sua pele fez com que a mulher desviasse a mira da lança e em vez de ser certeira na cabeça, como fora do marujo morto aos nossos pés, fincou-a no ombro do capitão que rugiu de dor, a mulher não esperou, virou um felino novamente para abater os lacaios que avançavam contra ela, sua selvageria implacável fazia ir ao chão, e às vezes aos ares, um, dois, três homens. Até que a tripulação foi totalmente dizimada. Sangue escorria de sua boca, os dentes brancos e afiados manchados com o vermelho vivo das vidas que acabara de tomar para si.
– Nidalee, eis o meu nome e a última coisa que ouvirá antes de sumir para sempre deste mundo. – A voz que entoou dos lábios daquele enorme felino era majestosa e selvagem tal qual sua dona que, ainda como fera, conseguia falar e se fazer entender. Burrice a minha achar que ela não falava, já pensou? Um gato gigante e mudo?!
O capitão estava recostado em uma árvore tentando arrancar a lança de seu ombro, apesar da situação crítica o homem ainda tinha um ar de riso em sua face. A felina se aproximou devagar, os pelos eriçados e a cabeça baixa, o corpo tensionado para atacar a qualquer segundo. Então... Ela saltou, sua mandíbula fechando-se na perna do capitão enquanto a pata direita, com um tapa, causou um sonoro CRACK ao quebrar o osso da perna de onde jorrava sangue. A fera não saiu impune, seu grito de dor e desespero pareceu acordar a recém adormecida floresta quando a espada do capitão atingiu seu estômago. Ela se desequilibrou e mancou para trás, antes que pudesse se recuperar, o homem apontou a pistola para baixo e disparou, mas não estava mirando nela. Uma explosão tomou conta do lugar quando o tiro acertou um de três barris que eu sei lá quando foram colocados ali, e com a mesma rapidez que se fez, se desfez. A felina não estava mais ali, se ela foi pelos ares com a explosão? Vai saber.
Os corpos dos homens mortos também desapareceram, como se nunca tivessem estado ali. O fogo desapareceu e do resquício da fumaça surgiu, cercado de escuridão, um único olho de um azul cristalino. Uma rede caiu sobre o capitão, que depois de tanto sangue perdido e uma perna dilacerada, não parecia ter forças para se defender. A criatura se aproximou, parecia um tigre cinzento que andava sobre duas patas. Tinha adereços de couro como os de um guerreiro cobrindo seu corpo e um tapa-olho de couro marrom cobrindo seu olho esquerdo, o outro olho estava cravado no capitão enquanto o homem-tigre rosnava e pegava o capitão pelo pescoço erguendo seu corpo quase inerte.
– A sua sorte é que mesmo um assassino tem princípios. Nenhuma vida deve depender da minha vontade. Você sofrerá as consequências no tempo certo. – A criatura jogou o corpo do capitão sobre o ombro e saltou para o alto das árvores além da minha vista. No chão, onde antes estava o corpo do capitão, tinha uma metade esquecida de uma laranja mordida.
E... Eu fui esquecido. Simplesmente deixado pra trás como se minha existência não significasse nada! Que absurdo! Ok. Eu tinha duas opções, ou seguia o felino maluco que levou o capitão e arriscava minha vida tentando salvá-lo, ou só ser morto mesmo, né?! Meio suicida essa opção aí, ou... Eu poderia voltar para o acampamento na praia e ver o que acontecia depois, né? É. Mas se eu fizesse isso eu não seria um explorador, então... Quem se importa com segurança, afinal?! Bora pra aventura!
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League of Legends - A Magia Perdida
FanficEm um mundo de caos e guerras onde a magia foi perdida, Ezreal viaja até uma terra distante para descobrir relíquias ocultas, mas acaba se envolvendo com uma disputa de seres buscando por poder e a magia oculta que foi perdida séculos antes. Tendo q...