Capítulo 18

24 5 1
                                    

20 de outubro de 2015/ noite

        
           Durante o jantar, fiquei no piloto automático. Colocava uma porção de comida na boca e me forçava a mastigar, sem sentir o gosto de nada, engolia a seco, sorria quando me encaravam e balançava a cabeça em concordância a tudo que ouvia. Os outros falavam sobre o dia, como havia sido divertido no trabalho e gargalharam alto enquanto Rosângela contava a história de um homem que havia esquecido a carteira.

    — E ele disse: " Não se preocupe, eu vou em casa buscar!". Como se eu fosse uma idiota. — Colocou a mão sobre o peito e se inclinou para trás, o corpo tremendo para segurar o riso. — Então eu peguei minha vassoura, olhei bem para ele, daquele jeito mau dos vilões de novela, e apontei o cabo para o rosto dele.

   — E o que ele disse? — perguntou Isabel, segurando seu copo de suco com as duas mãos.

   — Ele saiu correndo! — E mais uma vez a risada deles se misturaram.

Tentei acompanhar, mas o som que reproduzi mais parecia um guincho. Era como se eu estivesse do lado de fora de casa, no frio, onde o vento uivava como um cão vindo direto do purgatório, espiando pela janela. Eu não estava em mim.

Era Maria, eu tinha certeza. Aquele rosto magro e bem desenhado, o olhar meigo e a forma determinada de caminhar, era ela. Como? A Florence de 12 anos me questionou e me vi em uma sala escura, com apenas uma vela iluminando, sentada de frente para ela. Como? Ela repetiu, mais alto, me colocando contra a parede sem ao menos levantar. Não sei, respondi fraco.

Mas, e nós duas sabíamos disso, era real, era Maria.

Aqueles sete anos estavam começando a me afetar de verdade, bem na sanidade. Havia lido recentemente um livro em que a protagonista é esquizofrênica. Ela via coisas que não deveriam existir, essas alucinações a perturbaram tanto que ela virou uma assassina. Vou virar uma psicopata? Já comecei a ver gente morta, qual o próximo passo?

    — Flor? — Virei na direção de Ben, tentando me enxergar através de seus olhos. — Você está pálida!

   — E mal tocou na comida — completou Alice, encarando minha mão, segui seu olhar. Eu segurava a faca de mesa com força, pronta para o ataque. 

Lucas, do meu outro lado, tomou a faca de minha mão e a devolveu a mesa, delicadamente. Puxei o ar e soltei devagar.

   — E-eu s-só...não est-...quer dizer... eu só estou de ressaca literária! — disse. Parecia ser uma justificativa plausível, eu tinha a fama de ficar sozinha pelos cantos depois de ler um bom livro.

   — Tem certeza? — Alice insistiu.

   — Tenho. Só fiquei pensando nos finais diferentes que o livro poderia ter tido. Tipo, e se a protagonista tivesse descoberto antes que aquela mulher era a mãe do…

    — Blábláblá — interrompeu Ícaro, gesticulando com as mãos. — Ninguém quer saber. Garoto. — Apontou para Otávio — Me passa o purê.

Então, graças a Deus, eles mudaram o foco da conversa e passaram a elogiar Alice e seu jantar incrível, até mesmo Ícaro fez um bom comentário.

Olhei para a janela e a noite fora dela. Obrigada! Agradeci aos céus e voltei a empurrar a comida para dentro.   

   — Como sei se estou ficando louca? — perguntei baixinho no ouvido de Alice, o que a fez desligar a torneira da pia e me encarar cética

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

   — Como sei se estou ficando louca? — perguntei baixinho no ouvido de Alice, o que a fez desligar a torneira da pia e me encarar cética.

Estávamos na cozinha, limpando e lavando. Eu havia acabado de destruir a monotonia da música dos pratos sendo limpos, a palha da vassoura arrastando no chão e o assovio chato de Ícaro, que estava na sala consertando um rádio velho.

   — É sério, você tem que parar de ler  essas coisas. — Voltou a trabalhar, sorrindo de canto, os cabelos presos para trás e as mãos se enchendo de espuma.

   — Não estou falando de livro nenhum.

   — Hum. — Dessa vez ela não parou para me encarar.

   — Como sei se estou ficando esquizofrênica? — disse um pouco mais alto e o assovio de Ícaro parou. Prendi a respiração por alguns segundos até ouvir ele resmungar e dar um soco no rádio.

   — Olha, Florence, eu acredito que todas a pessoas têm um grau de loucura e é isso o que as torna especial. No nosso caso, estamos beirando a loucura de uma forma mais próxima do que a maioria, mas ainda assim é normal. — Terminou seu discurso ao mesmo tempo em que finalizou uma pilha de louça limpa, na bancada da pia.

Me deu as costas e abriu o armário em cima da geladeira, retirando dali um pote de doces, em seguida me entregou um.

   — Aqui, vá dormir, eu termino aqui.

Guardei o não era essa resposta que eu queria no meu íntimo, enfiei a bala na boca e sai da cozinha, passando por um Ícaro jogado sobre a mesinha de centro e as peças do rádio ao seu redor.

Segui o corredor na direção do meu quarto, mas, sem ter controle de minhas ações, acabei desviando da rota e parando na porta de Otávio. Não esperei a coragem vir dessa vez, nem ousei bater, apenas entrei de uma vez e segui até a cama, onde ele estava sentado, encarando a janela fechada.

   — Precisa de alguma coisa? — ofereceu, a voz vazia.

  — Só queria saber como você estava! — Otávio tinha adquirido o poder de me deixar constrangida e culpada. Tudo o que eu fazia para lhe agradar, desde limpar seu quarto até fazer sua comida favorita, todas as minhas ações eram inúteis. Nossa amizade havia morrido e sido substituída por sua ideia de que havia algo errado.

    — Cansado, eu queria dormir, então... — Um pedido indireto para que eu me retirasse. Assenti com a cabeça e remexi a bala na boca, voltei a fechar sua porta e segui para o quarto.

Eu o perdi, meu melhor amigo. E além dele estava começando a perder a pouca sanidade que me restava, quer dizer, era isso que eu preferia acreditar do que no fato de que Maria estava viva. Porque, se ela estava bem, significava que meus tios também. Não seja tola, menina. O diabo repreendeu. E aquilo não foi real, apenas fruto de sua imaginação afetada.

   — Não é real! — repeti já na cama, encarando o teto. — Estou ficando louca.

   

####
Capítulo curto, mas o próximo vai ter a presença de uma pessoa que tentará contar a verdade à Florence.

Olha o spoiler!

Não esqueça de votar.

Se Essa Vida Fosse Minha Onde histórias criam vida. Descubra agora