Cap. 19

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Na manhã do dia 14/06 (Sáb) 07h12

Acordei com o despertador do meu celular, que também acabou acordando Romero no mesmo instante.

— Bom dia.

— Bom dia. Feliz aniversário, irmão!! — Abraço ele após nos levantarmos da cama. — Te desejo tudo de bom e de melhor, que consiga terminar a faculdade, ter sucesso na carreira profissional, mas que acima de tudo, você continue sendo esse cara bacana, cheio de luz e saúde, que transborda alegria. Eu te amo — digo tudo durante o abraço, realmente era o que eu pensava. Bem menos, na verdade, ele merece muito mais.

— Valeu cara — ele sorri ao se afastar do abraço, me fazendo um toque de mão, envolvendo novamente seus braços por mim. — Eu também te amo, priminho.

— Só três meses de diferença, viu?! — Reviro os olhos, rindo.

Tomamos um breve café da manhã, o suficiente para aguentar correr e fazer exercícios ao longo dessa manhã. Ao invés do carro para chegar até o parque, que não ficava tão longe de casa, optamos por ir caminhando até lá. No caminho os meus tios ligaram para Romero, por isso paramos e aproveitamos para descansar. Eu estava adorando, quanto mais demorarmos aqui, supostamente eles teriam mais tempo para preparar as coisas no salão.

— Obrigado, mãe — ele derrama algumas lágrimas. — Estou com tanta saudade também, você nem tem noção. Sim, pai, de você também — ele ri, provavelmente meu tio interferiu na ligação para dramatizar. — Meu maior desejo seria ter vocês aqui comigo no dia de hoje. Sim, sim, a faculdade tá valendo a pena. Estou me esforçando sim — ele entorta os lábios, provavelmente se questionando se realmente estava. — Mas já? Tá bom, então. Não, não vamos fazer nada não. Ele tá aqui comigo. Mando sim. Beijo, tchau. Te amo.

Meu melhor amigo encerrou a ligação desligando o celular e o colocando de volta no bolso da bermuda.

— O que eles falaram?

— Ah, me parabenizaram pelos vinte e quatro anos, falaram sobre como o tempo passou rápido, que estão orgulhosos de mim, e que a distância é só um detalhe para quem ama de verdade. Que logo, logo estaríamos juntos de novo. Perguntaram se a facul tá valendo a pena, se tô dando conta. Essas coisas de mãe e pai, tá ligado? Ah, eles também mandaram um beijo para você.

Sorrio, os meus tios são demais. E mal sabe o Romero da maior, mas vamos deixar as surpresas e as emoções para mais tarde, ao vivo e a cores. Voltamos a correr, estávamos bem concentrados. Comecei a correr na segunda-feira, depois de meses sem me exercitar ou praticar algum exercício. É claro que pelo Corpo de Bombeiro eu mantenho uma vida saudável, mas por "obrigação" e na academia da corporação, o básico do básico, como um pré-treino, um aquecimento, assim que chegamos, por exemplo. Mas dessa vez quero fazer isso por mim, porque sinto falta de sair para refletir sobre a vida e tomar decisões certas. Sinto que minha vida vai mudar, um salto enorme, sabe? Não sei explicar como, ou porquê, mas sinto que esse lance de casamento está me fazendo ter novas ideias. Na verdade estou amadurendo muito mais depois disso, pois sinto que estou construindo minha família aos poucos. E com isso, automaticamente vem as preocupações normais de cada pai, mãe de família, ou até mesmo o próprio casal, juntos, que é se questionar se estão preparados, se vão conseguir. Mas no final eu sei que tudo sempre dá certo, só ter fé e acreditar.

— Você está pensativo — afirma.

— É, acho que sim.

— O que está te causando pensamentos fora do agora?

— Não sei, eu não consigo explicar. Provavelmente é só preocupação com os preparativos do casamento. É complicado você olhar para dentro de si e perceber que não é mais o garoto de nove anos acordando cedo para assistir desenhos na TV, ou o de dez que batia figurinha, muito menos o de doze que achava que nunca encontraria um amor, que não se preocupava com contas nem com a vida adulta. Parece que hoje, vendo quem eu sou, quem eu me tornei, tudo isso, toda essa responsabilidade, me causa um pouco de medo, talvez pânico. Estou prestes a me casar, daqui a um tempo pretendemos ter filhos, e... cara, eu sei que já fazem anos de namoro, que já provamos nosso amor, que já enfrentamos obstáculos que nos prepararam e nos fizeram ter certeza que essa escolha de casarmos é o certo a se fazer, sei que um dos nossos maiores desejos após o casamento é ter filhos, é saber criar, educar, amar, mas ao mesmo tempo não sei se estou preparado, muito menos se vou conseguir.

— Eu não entendo como você se sente assim, Miguel. Namoral. Você é o jovem mais determinado que eu conheço. Mas ao mesmo tempo eu compreendo o que tu tá sentindo. Porque, velho, de alguma forma tudo o que vivemos é um filme. E de fato, assim como todos os que já assistimos ou os que existem no geral, tem que ter um enredo, personagens, escolhas e conflitos, é assim que acontece e não poderia ser diferente, porque se não, não seria um filme. Não seria nossa vida. A vida tem dessas de inseguranças, medos, traumas e complicações, mas não há nada que não possa ser feito para superarmos tudo isso. Eu sou a pior pessoa para te dizer tudo isso, porque estou passando por uma fase fodida da minha vida, que nem eu mesmo sei o rumo que estou tomando, mas as nossas vidas, apesar de próximas, não são as mesmas. Você está a quinze passos mais a frente que eu. Você já tem um emprego fixo, já tem estabilidade financeira própria, já tem uma namorada, que na verdade é noiva, vai se casar, já está formando uma família, e... todos nós te amamos. Somos sua família. A preocupação que está sentindo, ó — aponta pra cabeça —, tá só aqui. Ela não é real, está só te enganando. Na verdade, é impossível não surgir esses pensamentos todos de uma vez quando você está prestes a tomar uma das maiores decisões da sua vida, que, mesmo tendo a certeza, indica mudanças nela. Muitas mudanças. Que mesmo já sabendo quais, nos faz questionar como agir em meio a cada uma delas. É como aquele tutorial de pizza na internet que passam a receita da massa, e de fato você faz igual, porque é a base da receita, mas chega no recheio e a pessoa que ensina coloca queijo e cogumelo, sendo que você odeia cogumelo. Daí você faz tudo como tem que fazer e chega no recheio ao invés de você colocar cogumelo você coloca azeitona, tá ligado? A vida te dá o roteiro do seu filme, e a única pessoa que pode decidir e trocar os acontecimentos para um desenvolvimento/final melhor ou continuar tentando acertar clicando na mesma tecla toda vez... É você. Mas tenha a certeza, você está no caminho certo — ele finaliza com um sorriso no rosto, tocando em meu ombro direito.

Estávamos sentados em uma rocha enorme no meio da grama, descansando e... desabafando?

— Você é incrível, cara. Minha sorte foi crescer ao seu lado. Cê diz que meus conselhos são bons porque você não para e observa os seus — risos.

— Sai — ele ri. — Na verdade eu acho que... independente do conselho, ele sendo bom, ajuda alguém que precisa ouvir aquilo.

— O bicho tá inspirado — caio na gargalhada. — Brincadeira, irmão, você é fera! — Fazemos um toque.

Ficamos um tempo assim, sentindo o vento no rosto, aliviando as coxas e as pernas depois de uns quarenta minutos correndo, só observando as outras pessoas praticando exercícios nos equipamentos do parque, outras passeando com animais de estimação, e o melhor, ouvindo o canto dos pássaros logo pela manhã.

— Mas e aí, você está bem? Não adianta mentir que eu sei que você anda frustrado, pra baixo, abalado... Eu te conheço desde pivete.

Romero me olha como se soubesse enxergar no mais profundo da alma que alguém fosse capaz.

Para Sempre Desde SempreOnde histórias criam vida. Descubra agora