Capítulo 7 - O Orelha

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Capítulo 7
"O Orelha"

☆I
4 de Junho de 2005

Era quase onze horas da noite de um sábado anormalmente quente para o mês, Sandara suava em bicas mesmo sem camisa e com o ventilador ligado, o estado de São Paulo é assim, quanto mais para o norte mais quente fica.
Estava a escrivaninha com uma pilha de papéis a sua frente, trabalhos de escola, corrigir aquilo o deixava realmente aborrecido, dava aulas para oito turmas, duas de cada da quarta a oitava série e sinceramente aqueles anõezinhos doentis estavam a cada ano mais burros. Abriu uma folha de almaço diante de si e leu exasperado o parágrafo de um aluno do oitavo ano onde o monstrengo dizia repetidas vezes que a Baía de Todos os Santos era uma Lagoa.
— Mas como pode ser asno assim... — resmungou verdadeiramente revoltado, um dia antes de passar aquele trabalho tinha dado uma aula com explanação detalhada sobre o litoral da Bahia para aquela turma, ai chega o miserável e escreve aquelas coisas... ser professor é coisa muito ardua e Sandara após quase vinte anos de profissão já estava tomando abuso disso.
Suspirou quando  ouviu batidas na porta — Entre. — respondeu mal humorado.
A porta foi aberta devagar, Edmundo entrou carregando um enorme bicho de pelúcia verde neon, era tão grande  que tinha de segurar com ambos os braços.
— Isso é... é o Dipsy? — Sandara sentiu seu mal humor desaparecer diante daquela cena tão inusitada, o bicho era do tamanho de uma pessoa.
— Sim... é que eu ganhei na quermesse da igreja, foi no tiro ao alvo. Eu ia dar para Meli mas voce sabe, ela tem horror de Teletubbies. Então... Você quer?

Sandara entendeu que aquele "Você quer" na verdade significava "me esforcei ao máximo para conseguir ganhar isso especialmente pra dar a você", então abriu um largo e sincero sorriso.
— Claro que eu quero, eu sempre quis um desses. — mentiu, quem em sã consciência queria um troço daqueles? Porem o sorriso foi sincero, sorria pelo gesto amável.
— Você tá ocupado? Eu não queria atrapalhar. — Edmundo percebeu os papéis.
— Não, eu vou acabar isso amanhã, ja encheu minha paciência esses garranchos.
— Que bom... —  Edmundo colocou o Teletubbie em cima da cama e tirou um envelope plastico do coz da calça — Eu comprei isso também.
Sandara esticou o braço e apanhou, era uma cópia pirata do DVD do filme "Constantine" estrelado por Keanu Reeves.
— Nossa, eu queria muito ver esse, é lançamento!
— Eu sei, ouvi você falando outro dia. Você quer assistir comigo?

Ele olhou para o rapaz a sua frente, era tão jovem e tão inocentemente belo que mesmo sabendo que não devia fazer aquilo, fez.
— Quero sim. Mas eu prefiro assistir aqui se não se importa.
— Aqui? Mas a TV da sala é bem maior.
— Ainda assim quero ficar aqui hoje, estou cheio de calor e a mãe não gosta de ninguém sem camisa pela casa.
Sandara colocou o DVD para rodar, a televisão ainda de tubo, uma Mitsubishi de 21 polegadas e cores opacas, começou a passar o filme.
Edmundo ficou sem jeito de deitar na cama de solteiro, então sentou no chão diante da televisão. Sandara aquela noite estava realmente irresponsavel e por isso fez o convite.
— Apague a luz a deite aqui comigo. — ele colocou o bicho de pelúcia sobre a cadeira e em seguida se esticou na cama.
Parecia mesmo audácia e irresponsabilidade, mas eu particularmente vejo como carência.
— Mas... mas não vai ficar apertado? — Edmundo tinha as orelhas vermelhas.
— Você não quer? Se não quiser não tem problema, nós vamos pra sala então, o que não pode é ficar no chão.
— Não! — Edmundo falou mais alto que devia.
— Tudo bem — Sandara sorriu — então venha, não quero perder o início do filme.

Deitaram juntos um ao lado do outro, ambos de braços cruzados sem se encostar. Sandara achou engraçado como Edmundo parecia pequeno ao seu lado mesmo tecnicamente sendo um homem de boa estatura, mas o que eram os um metro e setenta e oito centímetros dele perto dos um metro e noventa de Sandara? Os pés do maior estavam encostados na base da cama enquanto do menor não alcançavam nem a Barra dos lençóis.
O filme era muito bom para falar a verdade, mas quando aconteceu aquela cena de Constantine viajando para o inferno com os pés naquela tina d'água Sandara achou tão maneiro que comentou:
— Como será que fazem esses feitos parecerem tão reais?
Mas ninguém respondeu. Quando olhou para Edmundo percebeu que o rapaz estava cochilando, olhos fechados com os labios entre abertos. É, Edmundo era "Manhoso como um gato", sempre fora assim, dormia facilmente e era de sono pesado. Sandara examinou o rosto do rapaz, era realmente bonito, os cílios tão cumpridos que pareciam até aquelas pestanas falsas, mas as dele eram reais, as sobrancelhas grossas e a marca acinzentada de barba na pele do queixo e buço mostravam que nem de longe era mais criança porém o cheiro de óleo Johnson's Baby que vinha daquele corpo esguio ainda criava a ilusão de infantilidade. Sandara percebeu que o pescoço de Edmundo estava de mal jeito, suavemente o puxou para junto de seu corpo, a cabeça do rapaz apoiu em seu peito e instintivamente o Edmundo entrelaçou uma de suas pernas a do homem ao lado. Foi Imediato, Sandara sentiu o volume crescer em sua virilha, era inevitável, o corpo do garoto cheirava tão bem e era tão macio, ele pensou que Edmundo estava ali se ensinuando ou cosia assim, mas então sentiu a umidade atingir seu peito e percebeu que o garoto estava dormindo tão profundamente que havia começado a babar.
"Tudo bem, um pouco de saliva não faz mal a ninguém, pode babar em mim, não ligo", Sandara pensou enquanto fazia um cafuné suave no cabelo macio do rapaz, daí começou a se sentir culpado pela ereção de momentos antes, não parecia certo, Edmundo ali daquele jeito era para ele a criatura mais doce de todo o universo. Sandara não chegou a ver o fim do filme, abraçando Edmundo com um braço e o acariciando com o outro acabou adormecendo também.

Búfalo Sandara Onde histórias criam vida. Descubra agora