Capítulo LV ○ Jaebeom

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— Aqui é tão frio, como pode ser tão frio? — Youngjae sussurra depois de chegarmos em frente a nossa nova instalação, se aproximando de mim como se procurasse algum abrigo do frio, fico feliz de saber que ele me vê como abrigo, então apenas o puxo para mais perto de mim e tento deixá-lo o mais quentinho o possível.

— Literalmente a 10 minutos atrás nós estavamos derretendo no calor do inferno, mas aqui parece a porra de uma geladeira Electrolux de duas portas com dispenser de água e gelo. — Yugyeom resmunga, abraçando o próprio corpo enquanto olha ao redor do lugar.

— Isso foi estranhamente específico. — Bambam comenta, também dando uma volta pelo local.

Estamos em frente a uma cabana no meio da floresta, mais no meio da floresta do que já estavamos, e é óbvio que não é por um bom motivo. Mark e Jackson explicaram no caminho até aqui que antes de o acampamento se tornar um acampamento, um caçador era o único morador da área, não tinha mais ninguém além dele, e ninguém vinha visitar também. Ele era um eremita, vivendo longe do resto do mundo e ignorando a existência humana, completamente isolado por escolha próprio.

Um dia, enquanto caçava, caiu em uma vala funda que ele próprio havia cavado e não conseguiu sair, morreu 5 dias depois, de fome, sede e por conta dos muitos machucados. Pelo fato de viver longe, só acharam o corpo dele um mês depois, porque a única pessoa com quem ele se comunicava no mundo lá fora parou de receber as cartas que ele lhe mandava toda semana, essa pessoa era a filha dele e preocupada, ela mandou outras pessoas para procura-lo, no entanto, eles o acharam já sem vida. 

Um pouco depois da morte do caçador, o dono do acampamento comprou toda a área e isso incluia a cabana do velho, porém, como ela ficava distante demais da estrada mais próxima e muito dentro da floresta, acabou não tendo uso e sendo esquecida, sendo visitada apenas uma ou duas vezes por ano, só para ter certeza que estava tudo certo com ela, porque por mais distante que fosse, ainda era um patrimônio do acampamento.

Nem Jackson nem Mark sabem bem como o castigo começou, e disseram que na verdade é muito raro que alguém o receba, eles mesmo nunca pensaram que um dia receberiam esse castigo, mas aqui estamos nós, parados em um pequeno grupo em frente a porta da cabana do caçador, com frio, medo e fome, todo mundo fodido.

O castigo? Nós vamos virar o caçador. Eremitas, sem qualquer contato humano, sem ajuda externa, a mercê da própria sorte.  Ficar presos aqui, sozinhos até o fim do acampamento, sem receber ajuda além de um pequeno estoque de alimento.
Eu realmente não sei como vamos sobreviver a isso, somos todos burgueses safados que nunca precisaram se esforçar dessa forma pra conseguir sobreviver, então provavelmente nossa morte é certa.

— Isso não é, tipo, contra a lei ou sei lá? Não se encaixa em algum tipo de abuso? — Bambam pergunta, olhando em volta com uma careta. Mark e Jackson apenas suspiram em resposta.

— É como um cárcere privado, somos literalmente presidiários. — Jinyoung comenta, sorrindo de lado como se toda a situação o divertisse muito, Yugyeom, vendo o semblante do meu amigo, arqueja em desdém, e eu aposto que se fosse em outra situação os dois começariam a discutir como sempre fazem.

— Teoricamente não é contra a lei ou contra as regras, ainda estamos na área do acampamento, vamos receber comida todos os dias, tem água e todos os itens para necessidades básicas, a única coisa que nos diferencia dos outros campistas é o fato de não podermos sair da cabana. — Mark explica, suspirando. Todos ficamos em silêncio por um momento, observando o cômodo escuro lá dentro, não haviam camas, apenas sacos de dormir fofinhos, e fora uma mesa no meio do quarto, não havia qualquer outra mobília.

— Isso me soa como cárcere privado. — Yugyeom comenta depois de olhar tudo ao redor, o que faz Jinyoung olhar para ele com um semblante de quem diz "Eu disse!", mas Yugyeom apenas o ignora e toma a iniciativa de entrar dentro da cabana primeiro, sendo seguido pelo resto de nós.

Assim que todos entramos a porta da cabana se fecha atrás de nós com um baque, nos deixando completamente no escuro. Fora uma pequena janela no fim da cabana, não existia qualquer outro lugar por onde entrar luz, o que fazia o quarto ser muito mais frio aqui dentro do que do lado de fora.

— Onde está o interruptor? alguém liga a luz! — Bambam exclama desesperado, se agarrando no braço do Yugyeom como se sua vida dependesse disso, o que faz Yugyeom reclamar baixinho.

— Então... — Jackson dá uma risadinha nervosa e eu posso apostar que ele está fazendo uma careta culpada, que é óbvio, não podemos ver por conta do escuro. — Tem esse detalhe.

— Por que sinto que não vou gostar da próxima coisa que você vai falar? — Jinyoung pergunta, soltando um suspiro teatralmente do meu lado, o que é bizarro porque a um segundo atrás eu podia jurar que ele estava lá na frente perto do Yugyeom e do Bambam.

— Porque provavelmente você não vai. — Mark também suspira, cansado.

— Meio que aqui não tem energia. — Jackson solta de uma vez e ao meu lado Youngjae se encolhe no meu abraço. Todos soltamos exclamações de surpresa e dor, porque qual é? NÃO TEM LUZ?

— NÃO TEM LUZ? — Bambam externa meus pensamentos, com a voz aguda de uma gralha berrante. Mark suspira mais uma vez e eu acho que isso aqui virou uma competição de quem suspira mais vezes.

— É claro que tem luz. — Mark responde, pacientemente, isso faz com que todos relaxem. — Só não tem energia.

— Tá zoando, né? — Yugyeom pergunta, dando uma risada nervosa.

— Bem que eu queria, amigo, bem que eu queria... — Jackson dá uma batidinha no ombro de Yugyeom, tentando reconforta-lo.

— Tem duas lanternas a gás em baixo da mesa, fora isso e as velas, não temos mais nada para fazer luz. — Mark explica e é a vez de Youngjae suspirar.

— Parece que a gente sempre se mete no meio dessas enrascadas. — Ele comenta, se soltando de mim e sentando no chão na posição de lótus, como se tivesse desistido de continuar vivendo.

— Como vamos carregar os celulares se não tem energia? — Bambam pergunta todo alarmado e Jinyoung revira os olhos ao meu lado.

— Não vamos. — Meu amigo comenta, justo e paciente como era jesus. — Ficar sem celular faz parte do lance de ser um eremita.

— Ai caramba! — Yugyeom choraminga, sentando no chão com um baque seco, e sua reação define os sentimentos de todos os presentes no recinto. — A gente se fodeu.

Blind • 2Jae (HIATUS) Onde histórias criam vida. Descubra agora