Encaro meu reflexo no espelho impecavelmente limpo.
A luz forte do banheiro cria um contraste entre minha pele clara e as olheiras logo abaixo dos meus olhos, que retratam a noite anterior. Dormir tem se tornado um ato impraticável. Nos meus sonhos, vivencio o mesmo sofrimento. É como se tudo acontecesse novamente, e eu não pudesse fazer nada a respeito. É como se, em minha memória, eu ainda estivesse presa. Me sobrecarrego com sentimentos de perda e pensamentos negativos, mas não sei como me livrar disso.
Desfaço a trança embarassada do meu cabelo, deixando-o cair abaixo dos meus ombros. Entro na banheira, e estremeço ao entrar em contato com a água fria. Queria que ela limpasse minha alma, me livrando de tudo o que corrompe minha paz. Afundo minha cabeça, abafando todo o som externo, substituindo-o pelo ruído da água. Fico nessa posição até meus pulmões implorarem por ar.
Sinto como se meu coração estivesse prestes a explodir. Abraço meus joelhos e deixo as lágrimas rolarem livremente. Mesmo não estando mais submetida à Shadow's, as lembranças são insuportáveis. Minha vontade era de me livrar disso completamente, mesmo sabendo que isso é praticamente impossível.
Encaro meus pulsos, e me pergunto qual seria a sensação...
- Ellie? - a voz suave de Lawrence impede que meus pensamentos se completem - está tudo bem?
- Claro, já estou saindo - digo, me vestindo rapidamente.
Lawrence me aguarda na sala. O vinco entre as sobrancelhas e os seus olhos preocupados indicam que a conversa será longa. Caminho até ele e me sento na velha poltrona ao lado do sofá.
- Como está se sentindo? - a pergunta surge assim que encaro Lawrence, provavelmente meus olhos ainda estão vermelhos.
- Eu não sei explicar... por um momento só queria que tudo acabasse - não consigo dizer exatamente o que estou pensando, também não acho que seria ideal expressar tamanha confusão.
- Isso é natural Ellie - ele faz uma pausa longa - acho que todos nós nos sentimos assim alguma vez na vida, você não está sozinha. Coisas ruins acontecem, e podem nos derrubar ou não. Tudo depende da forma com que lidamos com isso.
- Eu só... pretendo ignorar esses pensamentos, de alguma forma. Só não sei exatamente como - fito o vidro embaçado e com gotículas de chuva que escorrem na janela atrás de Lawrence.
- Você sabia que quantos mais tentamos evitar um assunto, mais ele se torna uma preocupação? Talvez, seja melhor enfrentar esses pensamentos, entender o real motivo de eles te deixarem assim. Tente escrever sobre eles, - ele estende um caderno em minha direção - pode ajudar.
Assim que Lawrence me deixa, começo a pensar e me analisar internamente. Penso nos acontecimentos, bons e ruins, e escrevo tudo o que senti e ainda sinto por eles. Choro, sinto raiva, sinto o desejo por vingança que me persegue há meses. As páginas, antes brancas, agora carregam a carga emocional que estava presa dentro de mim.
Minha mente automaticamente se alivia, o aperto no peito some como se fosse mágica. Não entendo como algo tão simples pode funcionar tão bem. Claro, as emoções ainda estão lá, mas me sinto mais leve.
Levo o caderno para o quarto e o deixo guardado na primeira gaveta do criado-mudo. Me deito, encarando o teto. Me permito vaguear, dando liberdade à minha imaginação. Perdida num mundo utópico perfeito, adormeço.
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O Outro Lado da Sombra
Science FictionVocê não sabe que dia é hoje. Não sabe seu nome, nem mesmo quem você é. A única coisa que você sabe é que você precisa fugir, e correr o mais rápido que puder. Os laboratórios Shadow's Corporation, num anseio por novas descobertas , não...