Vermelho era uma cor sombria, Arthur teve certeza disso durante muito tempo. No sangue derramado de cada pessoa que já amou, nos cristais de Santo Berço, no fogo. Em cada momento onde havia medo, havia vermelho. Ter medo de uma cor era patético, mas após vê-la acompanhada da própria morte tantas vezes, era impossível não associá-la a ela, então a temeu.
Para Arthur, vermelho não era a cor do amor, era da morte.
Então se o amor não tinha uma cor, deveria ter um rosto, e não era difícil imaginá-lo. Cabelo curto, olhos puxados, uma expressão séria que não condizia com o tom de voz gentil que era tão bom em fazer tudo parecer bem, mesmo quando não estava, e ao lado dele, um par de olhos profundos e cabelos pretos longos, um sorriso que nem sempre estava presente, mas quando aparecia, era a visão mais linda do mundo. Joui e Cesar eram amor para Arthur, a forma mais bonita de representá-lo e, certamente, os responsáveis por mostrá-lo o verdadeiro significado da palavra.
Esperava conseguir dizer isso a eles um dia.
Enquanto o abraço entre os três se prolongava — afinal nem um deles queria que aquele momento acabasse —, sem soltar-se do aperto, olhou para sua guitarra ao lado da cama, uma ideia lhe passando à mente.
— Gente, o abraço tá bom, mas a gente precisa se separar um dia — declarou, soltando delicadamente o corpo de Cesar, que insistiu um pouco ao tentar segurá-lo para não ir, provocando uma risada no guitarrista, até ceder. — Eu queria tocar algo pra vocês.
E levantou-se, pegando a guitarra enquanto Joui subia mais na cama, apoiando suas costas contra a parede e o travesseiro, acenando para Cesar se aproximar e se acomodar em seu peito. Viu suas bochechas ficarem levemente vermelhas com o pedido, mas engatinhou até ele mesmo assim, deitando-se de costas com a cabeça apoiada no peito de Joui enquanto o outro passava os braços ao seu redor, aquecendo aquele corpo que sempre sentia frio. Arthur sorriu com a cena, indo se sentar de frente para os dois com sua guitarra no colo.
Mexeu um pouco no instrumento, ajustando algumas cordas enquanto se preparava para tocar, embora nem soubesse direito o quê. Não tinha nada em mente, queria apenas ser sincero e dizer o quanto os amava, e assim, tocou a primeira nota.
Passou os últimos meses treinando, tanto sozinho quanto com a nova banda, disposto a reaprender a tocar. Os sons que saíam do instrumento significavam mais do que era capaz de expressar, as lembranças de cada show e momento de felicidade cruzando sua mente a cada pedaço da música que era tocado. Não era mais tão fácil quanto antes, mas ao menos tinha a música consigo, e isso era a motivação que precisava.
A melodia que tocava era calma, sem o tom entusiasmático e alto característicos da guitarra. Olhou para os rostos em sua frente, que lhe observavam atentamente enquanto tocava, então limpou a garganta, pronto para começar a cantar a letra que, naturalmente, surgia em sua mente.
— Por mais uma noite, olho para o céu sem fim — começou, deixando-se levar por seus sentimentos, eles o conduziriam esta noite —, as estrelas não são nada quando você está aqui.
Arthur sentia falta do brilho das estrelas, mas ao lado deles, elas pareciam insignificantes. Toda a beleza delas, eles tinham. Era como se observá-los fosse como estar olhando para as próprias estrelas de perto.
— Por muito tempo me questionei se é real — continuou, então sorriu —, brilho como o teu não há igual.
Joui e Cesar eram as luzes que o guiavam nas noites enevoadas, quando nem a lua era capaz de lhe alcançar para iluminar seu caminho. Eles o guiavam e o protegiam do escuro, sempre juntos.
— Eu sei que o caminho é escuro e sim, eu tenho medo, mas com vocês — cantou o refrão, sua voz em harmonia perfeita com a música, preenchendo o quarto com amor a cada palavra —, tem uma luz no final dizendo para mim que não preciso temer.
Tudo o que passou ao lado deles o levou ao homem que era hoje, que apesar de suas inseguranças e receios, sentia orgulho de quem era. Aqueles homens o amavam, mesmo com cada defeito que tinha, e sempre estavam ao seu lado. Saber disso era o que o encorajava a enfrentar os desafios e os medos, qualquer coisa, desde que, no fim, eles estivessem aguardando por sua chegada.
— E com essa música eu só quero dizer — olhou diretamente para os olhos dos dois, os últimos acordes saindo da guitarra, o som ficando mais baixo enquanto sua voz também ficava, finalizando a música — amor rima com vocês.
Abaixou a cabeça em uma saudação, os dedos tocando a última nota, carregada de sentimento bonito, puro, verdadeiro.
— Tô vendo que eu só vou chorar hoje — Cesar comentou baixinho. Ergueu seu olhar, vendo-o secar suas lágrimas com a manga do casaco, ele sorria.
— Isso foi lindo, Arthur — Joui elogiou, também sorrindo, uma expressão de orgulho em sua face.
Vê-los daquela forma era tudo o que Arthur precisava. Felizes, serenos, unidos, seja por uma música ou não. O laço que tinham era uma corda, e ela fazia parte de um conjunto que tocava a música mais bonita do mundo.
— Eu queria dizer pra vocês como eu me sinto, espero que tenha funcionado. — Riu, satisfeito com o resultado.
— Mais do que você imagina — Joui respondeu, se esticando um pouco para frente para puxar Arthur para perto.
Cesar se afastou do corpo do outro, deitando-se ao lado dele e acenando para Arthur se deitar ao seu outro lado, para dessa forma o programador ficar no meio dos dois. Deixou a guitarra no final da cama e se aproximou, acomodando-se na cama, os corpos dos três praticamente grudados um no outro. Joui puxou as cobertas para cima, colocando-as sobre eles e então voltou para onde estava, deitando-se também.
— Você fechou a janela da sacada? — Arthur perguntou para o homem ao seu lado, virado de lado para o olhar.
— Fechei — respondeu, devolvendo o olhar.
Assentiu, observando atentamente sua expressão, o que falhava miseravelmente ao tentar na maior parte das vezes, mas naquela noite, ele parecia feliz. Pela proximidade, pôde ver seu corpo tremendo um pouco, apesar de ele não ter comentado sobre isso até então.
— Tá com frio? — perguntou, preocupado.
— Um pouco.
Passou o braço ao redor do corpo do outro mais uma vez, tentando aquecê-lo. Joui fez o mesmo do outro lado, ambos os homens abraçando-o, fornecendo seu calor.
— Ainda tá frio? — perguntou novamente, a cabeça apoiada no ombro do outro, sentindo seu cheiro delicado e o cabelo longo abaixo de si.
Cesar fechou os olhos, virando sua cabeça para cima e sorrindo minimamente, confortável com a situação.
— Não, não tá mais frio — respondeu, e então o quarto ficou silencioso, apenas os sons das respirações calmas sendo ouvidas.
Não demorou para adormecerem, os três com sorrisos nos rostos. Joui por ver as flores em seu jardim vivas e coloridas, Cesar por estar aquecido, longe de qualquer mal, e Arthur por sentir que naquela noite não teria um sonho ruim.
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Um refúgio em seus braços
Fiksi PenggemarO maior refúgio de Kaiser eram suas fotos e mesmo agora, meses após a missão, elas não voltaram ao normal. Na falta dos únicos sorrisos que eram capazes de acalmá-lo, se vê completamente desolado em meio a bagunça de seus pensamentos e as memórias. ...