Nota aos leitores

2 0 0
                                    

Este livro é sobre o amor do brasileiro ao futebol e o que o brasileiro faria se o Futebol fosse proibido.

Quem me conhece sabe que não sou o maior fã de futebol. Ou melhor: não sou nem o menor fã de futebol. Sou um brasileiro defeituoso, um pária da sociedade brasileira futebolística. Sim. Não jogo, não assisto jogos, nem ao menos sabia o nome das posições dos jogadores até o início da ideia deste livro. Para você ter uma ideia, eu sabia apenas o nome dos jogadores mais famosos como Pelé, Garrincha, Maradona, Ronaldinho, Messi, e talvez mais uns dez nomes. Só. até pouco tempo atrás, eu achava toda a cultura do futebol fútil, ridícula e emburrizante.

Você deve estar se perguntando: então porquê este cara resolveu escrever sobre futebol?

Foi na infância, por volta dos nove anos de idade, que eu tive minha primeira decepção com o futebol. Era um jogo da escola. O jogo era entre meu time da quarta série, e um time da sexta série. Era um Davi contra Golias, tanto pelo tamanho dos jogadores quanto pela habilidade. Ainda assim, estávamos empatados. Era fim de jogo. Passaram a bola para mim. Eu podia passar para outro, ou podia chutar para o gol. Eu chutei. 

O chute foi certeiro. O goleiro se esticou no chão para pegar a bola, que escapou de sua mão, quicou no chão e entrou. Todos viram, mas o sem vergonha empurrou a bola novamente para o campo como se o gol não tivesse acontecido. 

O juiz mandou o jogo continuar - devia estar cansado daquele bando de moleques e queria logo ir almoçar em casa - mas eu fui reclamar com ele. Ele não quis me ouvir, eu falei mais alto, gritei. Haviam dois árbitros naquele jogo, e eu nunca entendi o porquê. Os dois disseram que o gol não havia acontecido. Eu perdi a paciência e disse que os dois eram cegos, burros e que eram os piores árbitros que existiam. Fui expulso, é claro. Meu time ficou com um jogador a menos e levou outro gol. Eu nunca mais fui escolhido para jogar, e nem quis mais.

Esta foi minha última experiência com o futebol. Fazem uns 26 anos, mais ou menos. De lá para cá, me dediquei a outras paixões - não que eu fosse apaixonado por futebol, veja bem. Mantive um ódio particular pelo futebol, até que alguns anos atrás, percebi que a paixão que o brasileiro tem por este esporte, deve ser motivo de estudo antropológico. E comecei a pesquisar sobre este mundo que eu mesmo havia abandonado tanto tempo atrás.

Em 2014, imaginei um cenário distópico, no qual o Brasil seria governado por um partido militar-religioso que tomaria o poder e traria uma nova era, uma nova ditadura. Neste cenário, o futebol, as novelas, e algumas festas populares seriam proibidas. Aquilo que deixa o brasileiro padrão feliz, seria extirpado. O que sobraria?

Neste exercício de imaginação, encontrei o Gil Torres, um homem de 40 anos, ex-jogador amador de futebol. Alguém muito parecido com meu pai, com alguns tios e conhecidos. Um brasileiro padrão. Imaginei como ele seria se tivesse um relacionamento no estilo "dormindo com o inimigo", no qual sua esposa, não gostasse que ele jogasse bola, não gostasse dos amigos, de novela, fosse uma evangélica radical e muito caxias.

Veja bem, meu objetivo não é ridicularizar ninguém, sejam amantes do futebol ou evangélicos, aliás, eu mesmo sou evangélico. Meus personagens são caricaturas que vemos em nosso cotidiano. Talvez você mesmo se identifique com um destes personagens, ou veja sua mãe, vizinho, filha, conhecido do trabalho em algum deles. 

Espero que você aproveite esta estória. Esqueça os preconceitos. Abra sua mente para um mundo novo e totalmente diferente, onde o futebol morreu e a esperança de um brasil melhor reside em uma turma de amigos de infância, que agora são quarentões sedentários e semi-depressivos.

Boa leitura!

Dan Queirolo, 21 de dezembro de 2020.

O dia em que o futebol morreuOnde histórias criam vida. Descubra agora