rosesmavie
- Reads 527
- Votes 94
- Parts 17
Jennie Kim foge de Paris. Do contrato, da pressão, do barulho. Vai parar em Collioure, uma vila de pescador no sul da França onde o mar bate na pedra e ninguém pergunta seu sobrenome.
Lá, ela encontra o Sel Marin. Restaurante minúsculo, cozinha aberta, uma mesa pra sentar. E encontra Lisa Manobal.
Lisa é chef. Tailandesa, criada na França, filha de Araya - lenda da cozinha. É intersexo, de poucas palavras, dólmã sempre fechado e um caderninho verde no bolso pra quando a voz não sai. Lisa não conversa. Lisa cozinha. E quando Jennie senta no banquinho azul e pede Khao Soi, Lisa serve um prato que faz ela chorar.
Começa assim: um dia. Dois. Oito. Dezesseis.
Jennie volta. Lisa cozinha. Jennie chora menos, fala mais. Lisa escreve mais, fala alguma coisa. Entre caldo de cúrcuma, bilhete dobrado e o Fanal piscando lá fora, as duas constroem uma coisa que não tem nome em Paris.
Aí Collioure invade.
Madame Claire, mãe da Jennie, chega de vinho na mão e perguntas demais. Bernard, pai da Lisa, comanda o passe e a vida dela. Rosé e Jisoo descem do trem com mala da Rimowa e fome de fofoca. O Sel Marin lota. A cidade toda quer saber quem é a curadora que fez a chef sorrir.
Entre apéro na Place du Soleil, serviço lotado e noite de verão na Rue du Soleil, Jennie e Lisa tentam entender o que é isso. Não é caso de férias. Não é contrato. É varanda com lua, vinil do Fleetwood Mac, promessa escrita no caderno verde e regra nova: "Quem viaja, liga todo dia. Quem fica, deixa a luz acesa."