suamaturidade
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joão não se lembra de ter feito nada de errado.
ele se lembra do céu. das asas. da luz. da voz de deus dizendo seu nome antes de tudo ficar escuro.
depois disso, só se lembra da queda.
quando abre os olhos, está no meio dos arbustos de um convento religioso, com as asas destruídas, o corpo coberto de feridas e nenhuma lembrança de como chegou ali. ao seu lado, um garoto de joelhos pergunta se ele consegue respirar.
pedro tem dezessete anos e cresceu naquele convento. filho do pastor que administra o lugar, passou a vida aprendendo que existe um caminho certo para tudo: a maneira certa de amar, de desejar, de viver e, principalmente, de obedecer.
joão não conhece nenhuma delas.
ele não sabe usar um telefone, não entende por que os humanos mentem e faz perguntas que pedro passou a vida inteira aprendendo a não responder. às vezes, fala sobre o céu como quem fala de um lugar onde realmente esteve. outras vezes, parece saber coisas sobre deus que nenhum humano deveria saber.
e pedro começa a perceber que talvez a queda de joão não tenha sido um acidente.
o problema é que, quanto mais tempo passam juntos, mais difícil fica para pedro distinguir pecado de sentimento.
porque joão não entende por que aquilo que sente por ele deveria ser errado.
e pedro entende perfeitamente.
entre orações, segredos e asas que insistem em não desaparecer completamente, os dois vão descobrir que algumas coisas não podem ser escolhidas - nem evitadas, nem confessadas, nem esquecidas.
porque o amor não escolhe onde nasce, não escolhe quem merece, não escolhe o momento.
e talvez a pior parte da queda de joão não tenha sido perder o céu. talvez tenha sido descobrir, na terra, alguém por quem ele finalmente não queria voltar.