MariaManeiro
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Conto :
O gosto metálico do sangue já era um velho conhecido na boca de Glória. Aos 45 anos, ela olhava para o espelho rachado do banheiro e mal conseguia reconhecer a mulher que um dia carregou sonhos na bagagem. A decadência não vinha das marcas do tempo em seu corpo, mas sim da alma esmagada por anos de humilhações e pelos punhos pesados do homem que jurara amá-la. Naquela noite fria, o cansaço não era apenas físico; era o limite absoluto de sua existência. Ela não aguentava mais sumir um pouco a cada dia.
Com as mãos trêmulas e o coração batendo contra as costelas como um animal enjaulado, ela se trancou no quarto escuro. O som dos passos pesados dele na sala indicava que a trégua duraria pouco. Num ato de puro desespero, buscando um fiapo de esperança, ela discou o número do filho. Ele era sua única âncora na terra, o rapaz que tinha ido trabalhar na engrenagem implacável de Nova York para tentar dar uma vida melhor à mãe.
O telefone chamou uma, duas, três vezes. Cada toque parecia uma eternidade cortada pelo som da chuva forte que batia contra a vidraça.
No quarto toque, a linha fez um ruído estático e a ligação foi atendida. Mas o alívio de Glória morreu antes mesmo de nascer.
Não foi a voz jovem e familiar de seu filho que ecoou pelo alto-falante. O que preencheu o silêncio do quarto foi um tom grave, absurdamente calmo e gélido, que exalava uma autoridade perigosa. Uma voz que pertencia a alguém jovem, mas cujo peso parecia carregar o controle sobre a vida e a morte de metade daquela cidade.
Aquele telefonema feito no quarto , nascido da dor e do desespero de uma mulher cansada de sofrer, acabara de cruzar o caminho da criatura mais temida da cidade. Um encontro de dois mundos despedaçados, onde o perigo seria o início de uma paixão avassaladora e de um amor que começaria nas sombras.