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Valentina Della Torre não atravessa a própria porta há mais de uma década, o que ela considera uma decisão estratégica perfeitamente racional e a terapeuta dela insiste em chamar de outra coisa. Ela comanda um império inteiro de dentro de uma cobertura automatizada, fecha contratos milionários de moletom, anota as próprias crises numa caderneta azul com a disciplina de quem preenche relatório trimestral, e divide tudo isso com Van Gogh, um gato tricolor que a julga com uma consistência admirável e se deita no teclado dela sempre que a reunião é importante.
O sistema funcionava lindamente até a tarde em que ela aceita passar meia hora numa praça, como exercício terapêutico, e acaba travando uma disputa territorial acirrada com um pombo particularmente arrogante na frente de uma plateia. A plateia tem dez anos, se chama Sofia, senta no banco ao lado sem pedir licença, oferece um brownie torto, olha a cicatriz sem nenhuma das caras que todo mundo faz e informa, com a naturalidade brutal de quem ainda não aprendeu a ter medo, que Valentina não costuma fazer nada disso, mas que hoje é um bom dia para começar.
O que Valentina não planejou, porque ela planeja absolutamente tudo, foi a mãe da criança. Luiza Tavares tem vinte e cinco anos, três empregos que se atropelam em horários impossíveis, um talento assustador para confeitaria e a regra absoluta de não dever nada a ninguém, nunca. As duas se dão bem de um jeito inconveniente, se atrapalham de um jeito pior ainda, e em poucos meses já existe um lugar entre uma cobertura silenciosa e um puxadinho de parede descascada que as duas chamam de casa quando acham que a outra não está ouvindo.
Tem lasanha catastrófica, gravata que se recusa a ficar reta e uma criança conduzindo tudo nos bastidores. Tem também uma coisa que Valentina nunca contou para ninguém, e ela não cabe numa sinopse pelo mesmo motivo que não coube em uma década de terapia.