Nickyyee
- MGA BUMASA 332
- Mga Boto 53
- Mga Parte 4
- Shidou Ryusei: Eu cresci acreditando que não havia espaço para mim naquele lugar.
Havia sempre gritos, sempre portas batendo, sempre olhares que me atravessavam como se eu fosse apenas um erro esquecido no meio da sala. Diziam que eu teria irmãos, dois, por parte de quem deveria ter sido meu pai. Mas, em mais um dia que deveria ser comum - ou ao menos fingir ser -, a discussão passou do limite. Vozes se ergueram, cortantes como lâminas, até que a frase ecoou pela casa como uma sentença:
"Pode levar seus filhos embora. Os meus, você deixa."
Eu também era filho.
Mas ninguém parecia se lembrar disso.
Minha vida sempre foi feita de ruídos e violência, de dias nublados mesmo sob o sol mais forte. Eu brigava. Na escola, nas ruas, comigo mesmo. Era a única linguagem que eu conhecia. Até que, em um dia absurdamente claro, desses que parecem zombar de quem só carrega tempestades no peito, tudo mudou.
No meio de mais uma confusão, meus passos se chocaram contra livros espalhados pelo chão. Pertenciam ao garoto estranho da sala. Quieto demais. Invisível demais. Ninguém nunca reparava nele - eu incluso. Até aquele instante.
Ele era... diferente.
Os cabelos tinham a tonalidade do escarlate sob a luz, brilhando como se o próprio sol tivesse decidido repousar ali. Os olhos, de um azul profundo e opaco, lembravam um mar morto: belo, silencioso, perigoso. A pele clara contrastava com o caos ao redor, quase como se ele não pertencesse àquele mundo.
Perguntei se a culpa era minha.
Ele apenas assentiu, sem dizer uma palavra.
Pela primeira vez em muito tempo, pedi desculpas.
Ajoelhei-me para recolher o que havia caído, como se, ao tocar aqueles livros, eu também pudesse juntar algo quebrado dentro de mim.
Eu não sabia ainda, mas naquele dia - entre gritos abafados, corredores sujos e um silêncio que falava mais que qualquer briga -, minha vida encontrou algo que nunca teve antes.
Um ponto de calma.
Um olhar parecia não me julgar.