alexlindw
Atrás das muralhas, o mundo era inteiro.
Campos férteis, cidades limpas, reis gentis. Um lugar onde a miséria parecia um mito antigo, e onde até os plebeus caminhavam com a dignidade dos nobres. Nada ali preparava alguém para o som de um portão se fechando por dentro.
Na noite da queda, Aurelion Ashborn não foi coroado nem condenado. Foi levado. Arrancado do que era, antes que pudesse entender o porquê. Não houve discursos, nem despedidas. Apenas mãos firmes o puxando para longe, vozes baixas dizendo que não havia tempo, que o mar era a única misericórdia restante.
Foram os leais que o salvaram. Poucos. Suficientes. Homens e mulheres que não pediram explicações, apenas o cercaram como se o próprio corpo pudesse ser um escudo contra a traição que vinha do sangue. Aurelion não chorou. Não porque fosse forte, mas porque o choque rouba até o direito às lágrimas.
O navio cortou o mar como quem foge da memória. Cada onda apagava um pouco do reino que ficava para trás. As muralhas, os jardins, os rostos que ele acreditava eternos. Ninguém falava de vingança. Ninguém falava de retorno. O silêncio era mais honesto.
As terras distantes surgiram no horizonte como um erro do mundo. Costas sem nome, cidades que não apareciam nos mapas, povos que os livros de história jamais ousaram registrar. Ali, nem o passado o reconhecia. E talvez fosse esse o castigo mais cruel.
Aurelion Ashborn pisou em solo estranho sem título, sem futuro claro, carregando apenas um nome que já não o protegia. E enquanto o mar fechava o caminho de volta, algo nele compreendeu, com tristeza serena, que certos destinos não começam com escolha.