annalizie
Linsária possuía poucas coisas em vida. A jovem não dispunha um sobrenome para acompanhá-la, não portava terras ou heranças valiosas e, principalmente, não possuía visão - pelo menos, não da forma como os deuses queriam aos seus humanos.
Sem nada palpável, jovem serva, cega para qualquer rosto vivo que lhe aparecesse em frente, companheira de sombras sem definição e ouvidos mais apurados do que deveriam, possuía sim uma única coisa que, além do toque de mãos, estava muito longe de qualquer compreensão: os mortos.
Desde seu nascimento, quando abriu aqueles famosos e amaldiçoados olhos leitosos pela primeira vez, sob o olhar dos Sete e de alguma infortúnia parteira horrorizada, Linsária enxergava muito mais do que qualquer outro ser de visão poderia. Onde quer que fosse, atormentada com essências que já não pertenciam àquela terra, ela era acompanhada pela sombra furtiva dos que já se haviam ido - e, exatamente por isso, era considerada a grande praga da Fortaleza por aqueles corajosos o suficiente para chegarem perto.
E essa jovem serva, tão silenciosa e reclusa quanto qualquer espírito que podia avistar, estava resignada com esse destino solitário e de um serviço bem mais pesado do que seus ombros ossudos podiam aguentar. Entretanto, Linsária definitivamente não esperava que sua mera e silente existência seria virada de cabeça abaixo ao enxergar pela primeira vez, sob a luz da labareda de um único archote, a face gentil do segundo filho de Rhaenyra Targaryen, confuso do motivo pelo qual os outros o ignoravam.
E, sobre vultos e o rosto dos mortos, ela era a única que podia ter-lhe respostas, independente do quão terríveis fossem. E eram. Afinal, se Linsária Sem-Nome via Lucerys Velaryon, significava que a Morte e a Guerra estavam batendo à porta - e elas, junto do príncipe de olhos azuis atormentados, tinham muito a dizer.