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Dizem que, nos tempos antigos, quando as histórias ainda viajavam apenas pela boca dos velhos e ecoavam nas fogueiras das noites frias, havia sempre uma fábula que ninguém ousava contar por completo. Uma fábula que caminhava entre o impossível e o proibido.
Falava-se, em voz baixa, sobre um amor que nunca encontrou lugar nos livros, nem nas canções dos viajantes: o amor entre um predador e uma presa. Entre passos leves e caudas silenciosas. Entre mundos separados por instintos e leis mais velhas que qualquer cidade.
Alguns narradores juravam que tal sentimento era apenas um capricho da imaginação - lendas inventadas para ensinar a juventude a não sonhar tão alto. Outros, porém, acreditavam que, se existisse mesmo um coração capaz de desafiar as fronteiras da natureza, ele certamente bateria no peito de alguém improvável... talvez de um raposo que aprendeu cedo demais a esconder o que sente.
E quanto à coelha?
Ah, essa parte ninguém nunca soube responder. Porque os contadores mais sábios diziam que o coração dela era como a primavera: rápido, corajoso, imprevisível. Capaz de florescer onde ninguém esperava.
E assim, ao longo das eras, a pergunta sempre retornava, como vento que insiste em passar pelas mesmas árvores:
Se um raposo amasse uma coelha... poderia esse amor ser correspondido?
E mais profundo ainda - poderia esse amor sobreviver ao peso do mundo?
Ninguém sabia.
Ninguém ousava afirmar.
Pois algumas histórias, diziam os antigos, não nascem para serem respondidas de imediato.
Nascem para serem vividas.