autoraharumi
Zara:
Ninguém sabe quem é o melhor mentiroso do mundo.
Dizem que esta tem pernas curtas, mas e quando ela perdura por séculos? Nada que uma nota não resolva.
Eu carrego um Império inteiro nos ombros, algo que, com um mero deslize, pode ruir. Parte de mim quer que ele vire apenas cinzas, mas a outra, enraizada no solo infértil da qual cresci, sabe muito bem que a minha vida gira em torno disso.
Bem, sacrificar é viver.
E o xadrez, com toda a sua lógica, é preciso abrir os olhos para enxergar as coisas das quais valem a pena lutar. Já perdi mais do que recebi, mas isto me parece tentador a ponto de apostar tudo em algo que pode me destruir com um estalar de dedos ― ou um cochicho para as autoridades.
Vivo numa prisão de vidro constituída pelas minhas próprias neuras e ódios, cuja é necessário ferir para se libertar.
O meu cérebro já se conformou com isso. Porque, às vezes, perder pode ser a única maneira de se livrar.
Orion:
Não vale a pena chorar pelo leite derramado, certo?
Mas e quando este sai de você, enquanto pensa em alguém com todas as características que seus pais ensinaram a evitar?
Não sei. Apenas estou ciente de que estar perto dela é sinônimo de perigo e morte.
Não é uma besta cega a ser domada. Porém, quando aqueles olhos se encontram com os meus, eu não vejo estrelas. Vejo um cru e nefasto mar de cadáveres, consequentes de uma guerra sem fim iniciada entre sua mente e o seu coração, o reflexo de todo o seu âmago.
Mas no fundo, eu vejo um passado travado ali, algo intrincado com orgulho tampando as rachaduras que se recusa a exibir.
No entanto, talvez eu tema menos o que encontro nela, e mais o que desperta em mim.
Porque cada fissura que ela esconde é também a cicatriz que eu carrego.
E se o passado é prólogo, como dizia Shakespeare, então somos apenas atores, presos a um roteiro que insiste em nos unir, mesmo quando tudo grita para nos separar.
Ela é a verdade nua e crua. E a verdade dói.