scorpiheart
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"o mundo como me atravessa" é um livro feito de ecos.
não de acontecimentos recentes, nem de urgências do presente, mas de vozes que continuam ressoando muito depois de o som original ter cessado. os textos reunidos aqui nasceram da escuta tardia de uma vida em movimento. fragmentos escritos a partir do que ficou, do que retornou, do que insistiu em não se calar.
ao longo de aproximadamente dezessete anos, a autora registra a forma como o mundo a atravessou, ou como ela atravessou o mundo, sem nunca ter certeza absoluta de qual das duas coisas aconteceu. são textos que não buscam reconstruir fatos, nem organizar uma narrativa linear, mas acompanhar os efeitos: aquilo que se deposita no corpo, na linguagem, no olhar, depois que o momento já passou.
os fragmentos falam de falta, permanência, escrita, silêncio, amor, ruína, sobrevivência e delicadeza sem promessa de cura. não há aqui a tentativa de explicar a dor, nem de superá-la, mas de nomear os lugares onde ela se transformou em percepção. a escrita surge menos como alívio e mais como território, um espaço possível para existir sem precisar se corrigir.
este não é um livro sobre o agora. é um livro sobre o depois.
sobre o tempo em que a experiência já não dói do mesmo jeito, mas ainda molda.
sobre o que permanece quando o impacto passa e só o eco continua.
"o mundo como me atravessa" não oferece respostas, nem finais claros. oferece presença. e convida o leitor a habitar, junto, esse intervalo entre viver e compreender, onde sentir ainda é a forma mais honesta de saber.