OkenDeserto
Uma população ajoelhada sob um sistema pesado, sustentando a civilização que construiu. Com um complexo de cabeamento desnorteado transpassando e serpenteando entre os joelhos no chão.
Uma sociedade de pessoas sem propósito, marginalizada em estruturas infinitas de concreto e escuridão, vitimada pela complexidade burocrática e epidêmica que o tecnofetichismo providenciou ao longo dos anos.
Moldes inalcançáveis, extinção absoluta, substituição imparável, inundação de propagandas, pódio de inteligências artificiais, estupros virtuais, vigilância constante, segurança mínima, empatia escassa.
Becos sem fins, interconectados em um labirinto repleto de sistemas de alarmes obsoletos e câmeras que eclodem das paredes como mofo, mas cujas telas ninguém assenta-se para assistir. Um mundo onde a natureza é estrangeira. Uma sociedade onde a empatia é cara demais. Socializar é lento e muito ortodoxo, os superestímulos das telas, das luzes, dos brinquedos sexuais e das drogas virtuais são muito mais recompensadores à curto prazo. E aqui está uma população que vive como se não houvesse futuro. A fluidez das novidades e da efemeridade da tecnologias (que são sempre ultrapassadas) extinguiu totalmente o senso de passado.
Um mundo onde as máquinas não dominaram. Onde a poluição luminosa ofuscou até o Sol. A tecnologia descartada e repetitiva se manifesta inconscientemente através do abandono de circuitos cada vez mais complexos, intrínsecos e artificiais. Onde o comportamento emergente de milhões de mecanismos se tornou a nova natureza. Onde um deus da máquina angustia e se contorce em milagres sangrentos e podres dentro de corredores esquecidos, cujas veias percorrem as cidades, e os pensamentos reverberam dos subsolos aos arranhacéus.
Uma história em que a vida é frágil e descartável. Não haverá honra e nem celebração. Damnatio memoriae para todos. O Basilisco de Roko acordou.