autoracherrylips
Alexander Romanov
Eu soube desde o primeiro segundo que nunca deveria ter sustentado o olhar nela.
Existem pessoas que você reconhece como perigo antes mesmo de tocar. Alissa Belmont sempre foi esse tipo de ameaça, bonita demais para ser inocente, intensa demais para ser ignorada. E ainda assim, eu fui burro o suficiente para dar espaço. Uma noite. Só uma.
Foi o bastante.
Ela não precisou de mais do que algumas horas para desmontar tudo o que eu mantinha sob controle. Como se tivesse encontrado as fissuras exatas e pressionado até ouvir o estalo.
Alissa não me persegue apenas na memória.
Ela se infiltra nos meus sonhos.
Escurece pensamentos que eu já não conseguia manter limpos.
Nós dois nunca fomos feitos para calmaria. Somos extremos. Somos excesso.
E eu odiei perceber o quanto senti falta disso.
Senti falta da maneira como os olhos dela percorrem um ambiente desconhecido, atentos, curiosos.
Senti falta do estalo nervoso dos dedos quando ela tenta esconder o desconforto.
Do jeito que morde o lábio inferior para conter a raiva que eu sei provocar nela de propósito.
Eu sei exatamente onde tocar.
Ela sabe exatamente onde cortar.
Sou louco por ela?
Completamente.
Eu a odeio?
Sim.
Mas nunca na mesma proporção em que a amo.
Porque o que existe entre nós não é só desejo. Não é só atração mal resolvida. É vício. É dependência. É reconhecer no outro a própria ruína.
Nós não somos redenção.
Somos o desastre anunciado.
Somos o erro repetido com plena consciência.
Somos a pura e canicifica obsessão.
Ela é o meu álibi...
E também o meu crime.