dongcatcher
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Se você está lendo isso, é porque eu finalmente abri o piano. Ou porque já não estou aqui para impedir que você o fizesse.
Ele guarda as notas que nunca toquei, as palavras que engoli, e os pedaços de mim que deixei nas teclas e na mulher que me ensinou a tocá-lo de novo.
Quer saber como tudo começou?
Um consultório com cheiro de café amargo. Uma terapeuta com olhos de tempestade. Uma ex-pianista com mãos quebradas e um segredo: eu ainda ouvia música, mesmo no silêncio. Especialmente no silêncio.
Bora me pediu uma nota. Toquei o Lá bemol mais desafinado do mundo. Ela riu. E eu soube: estávamos destinadas a nos destruir.
Veio o amor, o tipo que fere nos ossos. Tocamos com cicatrizes. Mentimos com convicção. Compramos um piano, escondemos exames, fizemos sexo no banco dele e choramos no chão do banheiro.
Ela compôs para me amar em silêncio. E eu aprendi a escutar o que ela nunca disse: que o tempo acabava.
Você talvez já saiba disso. Ou talvez não. Há coisas que só existem entre um acorde e outro.
Agora, com este diário nas mãos, entenda: cada palavra é uma tecla. Cada página, um pedaço da nossa música inacabada.
E a última folha em branco... não é erro. É o silêncio que ficou. Às vezes eu só queria saber ser gente como ela.
- S