Gojo_baby
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Você esconde, mente, apaga rastros, reinventa passados. Não por malícia, mas por desespero - o desespero do náufrago que vê uma ilha e nada até as unhas sangrarem, mesmo que a ilha seja apenas um reflexo na água. A ética torna-se flexível, os princípios dobram-se como junco sob o vendaval do desejo. O mundo exterior desfoca-se, perde relevância. A única verdade reside na possibilidade - ainda que ilusória - de fusão.
E no ápice desse processo, percebe-se que a sedução nunca foi sobre o outro. Foi sempre sobre a própria fome, o próprio vazio que se projetou em um corpo alheio e o coroou de significados divinos. Deseja-se a conexão absoluta porque se teme a solidão absoluta. Quer-se devorar o outro porque, no fundo, teme-se ser devorado pela própria insignificância.
A sedução bem-sucedida, portanto, não termina na posse. Termina no momento em que você percebe que o banquete é ilusório - que no fim, você está sozinho à mesa, com o sabor do desejo na boca e o eco do próprio vazio no silêncio que se segue.