LavisMora
Do sexto ao nono ano, vivi quatro anos da minha vida tentando acreditar que tudo aquilo era só uma fase. Tive momentos bons, sim, mas a maior parte do tempo foi feita de conversas fiadas, boatos persistentes e zombarias que sempre encontravam um jeito de me alcançar.
Entre tantas vozes, um nome nunca deixou de ecoar: Helena Costa.
Ela não era apenas alguém que zombava. Ela era a ferida.
Lembro de ser trancada no banheiro.
De encontrar cola na minha cadeira.
De descobrir um perfil falso na internet falando sobre mim como se eu não fosse uma pessoa de verdade.
Isso me machucava.
Machuca até hoje.
Todos os dias, quando eu chegava em casa, as lágrimas vinham sem pedir permissão. Eu segurava tudo enquanto estava na escola, mas bastava fechar a porta do quarto para desabar.
Eu tinha duas amigas - Bruna e Tiffany. Fazíamos aula de piano juntas. Elas estavam comigo, sempre. Mesmo assim, eu nunca contei o que acontecia. Não porque não confiasse nelas, mas porque não queria preocupá-las. Então guardei tudo. Cada humilhação. Cada silêncio.
Até o dia em que Helena me empurrou no chão, espalhou meus materiais pelo corredor e disse coisas que eu preferia não lembrar. Os professores viram. Ou fingiram não ver. Aquela escola nunca se importou de verdade.
Quando cheguei em casa, não consegui encarar minha mãe. Fui direto para o quarto. E ali, depois de tanto tempo guardando tudo sozinha, eu quebrei.
Não consegui explicar direito. As palavras se misturavam às lágrimas, mas ela entendeu. Viu o quanto eu estava cansada. Algum tempo depois, conversou com minha tia e surgiu a possibilidade de eu passar o ensino médio com ela, nos Estados Unidos. No Arizona.
Talvez não fosse um sonho.
Mas era um recomeço.
E, naquele momento, recomeçar era tudo o que eu precisava.