MarcusOliveira805
No Arquipélago de Luaréu, o mar não é apenas fronteira: é arquivo. Em suas marés, o sal cristaliza lembranças humanas - nomes, promessas, orações sussurradas na beira do cais - e, quando moído e soprado ao vento certo, torna-se magia. Mas todo encanto cobra um preço: cada feitiço consome uma parte de quem o lançou, apagando memórias como uma lâmina lenta e limpa.
Ivo Luar, escriba anônimo dos portos, cresceu entre inventários e tempestades, aprendendo a ler o mundo como quem lê um texto rasurado. Invisível aos poderosos e faminto por significado, ele descobre um método impossível: destilar o sal-memória sem sofrer o esquecimento que mantém os mágicos sob controle. A notícia corre como fogo em vela seca. De um dia para o outro, Ivo deixa de ser ninguém - torna-se conselheiro, depois símbolo de uma nova era, e por fim a mão que inclina o rumo do arquipélago.
Só que a dívida não desaparece: ela muda de lugar. Ao burlar o preço tradicional, Ivo não perde lembranças; perde vínculos. A cada gesto de poder, algo dentro dele se torna mais frio e mais distante - como se o mar, impedido de tomar seus fatos, tomasse sua capacidade de amar, confiar e reconhecer o outro como "meu". Enquanto sua influência cresce e as ilhas se curvam diante do "milagre", as pessoas ao redor começam a se tornar estranhas, e a própria vitória passa a ter o gosto metálico de uma traição que ninguém consegue nomear.
Do outro lado, Dama Serídia - guardiã da ordem do sal e do antigo equilíbrio - vê em Ivo não apenas um rival, mas uma ruptura perigosa: um homem que quer o alto sem o freio do sacrifício, e que pode inaugurar um tipo de tirania mais silenciosa, porque não nasce do ódio, e sim da ausência de laços. Entre conspirações, pactos marítimos e tempestades convocadas por mãos humanas, a ascensão de Ivo se transforma num caminho sem retorno, até que o arquipélago inteiro precise escolher entre o conforto do poder fácil e a dor necess