Escritoraay
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- Às vezes, amar alguém é viver cada segundo como se fosse o último... e ela sabia disso melhor do que eu.
Eu achava que entendia o significado do tempo. Era algo a ser enfrentado. Um adversário a ser derrotado na corrida contra a burocracia de um processo, no relógio de ponto de um plantão interminável, na contagem regressiva dos minutos até a próxima dose de medicação da Alice. O tempo era um inimigo concreto, mensurável em segundos perdidos, em horas de sono roubadas, em prazos vencidos. Eu lutava contra ele com listas, com agendas, com a feroz determinação de quem acredita que a disciplina pode domar até mesmo a passagem dos astros.
Lorena... Lorena não lutava contra o tempo. Ela dançava com ele.
Ela o alongava nas pausas entre uma palavra e outra, quando seus olhos castanhos se perdiam na luz que filtrada pela janela, capturando um raio de sol como se fosse um diamante efêmero. Ela o comprimia nas risadas, que surgiam de repente, cristalinas e completas, preenchendo um quarto de hospital com a sensação de que aquele momento único era suficiente para uma vida inteira. Ela entendia, em um nível celular, em um nível de quem conversava com a própria finitude todos os dias ao ajustar o tubo de oxigênio, que o tempo não era uma linha reta a ser percorrida, mas uma série de ilhas de significado. E cada ilha, por menor que fosse - o sabor de um morango, a textura de um livro velho, o toque de nossas mãos se encontrando sob a mesa -, era um continente inteiro de experiência.