ortegacomp_
- LECTURAS 43,129
- Votos 3,075
- Partes 14
Durante dois anos, todos os dias, exceto aos domingos, Enid atende a mesma cliente. Ela chega sempre no mesmo horário, escolhe sempre a mesma mesa, pede sempre o mesmo cappuccino e carrega consigo um livro que nunca parece terminar. Em meio ao barulho do café, à rotatividade dos clientes e à rotina cansativa, aquela mulher se torna um ponto fixo, um hábito silencioso que Enid passa a observar mais do que deveria.
Enid trabalha como garçonete ao lado da melhor amiga, Yoko. As duas são extrovertidas, carismáticas e adoradas pelos clientes, mas o sorriso fácil esconde a exaustão de quem precisa se sustentar enquanto tenta pagar a faculdade. Enid assume o turno da manhã e enfrenta a universidade à noite; é perigoso, é cansativo, mas a alternativa é aceitar o mesmo futuro apagado que seus pais tiveram.
Entre pedidos anotados e mesas limpas, ela cria teorias sobre a cliente misteriosa, tentando preencher com imaginação o silêncio que nunca é quebrado.
Até que, depois de dois anos apenas observando, Enid decide perguntar o que nunca deveria.
O que a faz sentar sempre na mesma mesa? A resposta vem fria, sem sequer um olhar, os olhos da mulher presos ao livro como se Enid não estivesse ali: o que te faz achar que isso é da sua conta? Naquele instante, Enid entende que atravessou uma linha invisível, e que algumas rotinas não existem por acaso, assim como algumas histórias não querem ser descobertas.
📍História original.