DoceDevaneio
A tela brilhou com o anúncio de "Vitória" para ele. Pela quarta vez seguida, ele venceu.
- Não é possível! Você está roubando, só pode! - ela gritou, rindo alto e dando um tapa brincalhão no braço dele.
Ele nem se mexeu. Apenas soltou o controle no sofá, deu aquele sorriso de canto que sempre usava quando estava convencido e olhou para ela.
- Eu só sou melhor que você, aceita - ele disse, com aquela voz baixa e mansa de sempre.
Ela continuou rindo, o corpo ainda inclinado em direção ao dele pela brincadeira. Por um segundo, os olhos dele não desviaram dos dela. O quarto ficou subitamente silencioso. O barulho da música do menu do jogo parecia ter ficado distante.
Ali, tão perto, ela notou os detalhes das tatuagens no pescoço dele e como ele parecia calmo, um contraste total com a energia barulhenta dela. O coração dela disparou. Ela sentiu uma vontade súbita e urgente de se inclinar um pouco mais e beijá-lo.
Mas, no segundo seguinte, o peso de tudo veio à tona. Ela lembrou do filho em casa, dos seus 34 anos e, principalmente, das cicatrizes do último relacionamento que a deixou em pedaços. "Ele é só um garoto", pensou, "e você já sofreu demais para arruinar uma amizade dessas".
Ela desviou o olhar rapidamente, pigarreando e se afastando alguns centímetros.
- Deixa pra lá... - ela murmurou, tentando recuperar o tom de voz alto. - Na próxima eu te destruo. Coloca outra partida aí.
Ele continuou observando-a por um tempo, percebendo que o clima tinha mudado, mas não pressionou. Apenas pegou o controle de volta, respeitando o silêncio dela.