Jhonelho_
Prólogo: O Último Story
A bateria de Bianca marcava 4%.
O brilho da tela era a única coisa que iluminava o interior do antigo casarão das bonecas, na periferia de Vale do Eco. O cheiro de mofo e poeira úmida subia pelo nariz, misturado ao perfume caro que ela tinha passado horas antes, agora azedo pelo suor do pânico.
- Galera... se alguém estiver vendo isso... - ela sussurrou para a câmera frontal, a voz falhando. - Eu não sei onde estou. O GPS parou na estrada de terra. Eu vi uma luz... eu achei que era o meu pai me procurando...
Ela girou a câmera. O flash revelou fileiras de prateleiras de madeira podre cobertas por cabeças de porcelana. Centenas de olhos de vidro parados, refletindo a luz branca do celular.
Um estalo ecoou no fundo do corredor. Creck.
Bianca congelou. Os comentários na live subiam freneticamente: "Isso é marketing?", "Sai daí, Bia!", "Fake!". Mas um comentário, de um perfil sem foto chamado @OSilencio, travou na tela:
"Grite mais alto. Ninguém na cidade quer ouvir."
Um vulto cruzou o fundo do corredor. Não era rápido; era lento, deliberado. Alguém que conhecia cada tábua solta daquele chão. Bianca soltou um soluço sufocado e começou a correr.
Seus passos ecoavam como tiros no silêncio absoluto. Ela dobrou um corredor, as sandálias derrapando no lodo, e deu de cara com uma porta trancada. O desespero tomou conta. Ela bateu o corpo contra a madeira, mas a porta nem estremeceu.
Ao virar para trás, a luz do celular iluminou o que ela mais temia.
A figura usava um sobretudo escuro, pesado, que parecia absorver a pouca luz do ambiente. Mas o que paralisou o coração de Bianca foi o rosto. Ou a falta dele. Uma máscara de porcelana branca, perfeitamente lisa, exceto pelos lábios pintados em um sorriso vermelho imóvel e buracos vazios onde deveriam estar os olhos.
O invasor não disse nada. Ele apenas estendeu a mão, segurando um pequeno objeto de metal: o distintivo de polícia do pai de Leo, desaparecido há dez