miyooboboca
Eu nunca soube explicar o que somos.
Nem para os outros,
nem para mim mesmo.
Você apareceu no dia errado,
na hora errada,
no corpo errado.
E mesmo assim...
ficou.
Eu estava parado na beira do abismo,
como sempre.
Olhando para baixo,
tentando convencer a mim mesmo
de que a queda não doeria tanto.
Então você surgiu,
com esse seu sorriso torto
e essa mania irritante
de acreditar que tudo pode melhorar.
Disse que ia me puxar para o centro.
Eu ri.
Ninguém nunca tentou se aproxima tanto antes.
Mas você continuou ali,
sentado ao meu lado,
como se o abismo fosse só
mais um banco de praça.
A gente nunca prometeu nada.
Nem amizade eterna,
nem finais felizes,
nem que ficaríamos juntos.
Só mensagens de madrugada,
colchões no chão,
ligações confusas
e silêncios que não machucavam tanto
quando você estava por perto.
Às vezes eu acho
que você nem percebeu
o quanto eu me agarrei à sua voz,
às suas piadas,
ao jeito que você dizia
que tudo ia ficar bem.
Como se fosse verdade.
Como se eu também pudesse acreditar.
Eu ainda estou na beira do abismo.
A diferença é que, agora,
quando olho para o lado...
você está lá.
E, por algum motivo,
cair já não parece
a única opção.