Imperfeito_piepieh
Construtores
Em Amambai, Mato Grosso do Sul, o amor não vem com anúncio. Vem com a enxada cortando o mato, com o salgado dividido no corredor, com o dinheiro contado no bolso de calça jeans surrada.
Adir Piracema Silva tem 16 anos, mãos calejadas e um silêncio que aprendeu a usar como escudo. Saiu da aldeia com a mãe e os irmãos, deixou o pai para trás, e desde os doze trabalha para sobreviver. Capina quintal, vende mandioca na feira, faz bicos de pedreiro. Na escola, ocupa a última carteira - perto da janela, perto da saída, perto de onde ninguém olha.
Raquel Oliveira também tem 16 anos. Mora num cômodo alugado atrás do supermercado onde a mãe trabalha. Tem cara de quem não precisa de nada - os olhos verdes, a postura fechada, as respostas certeiras. Mas a cara é mentira. Dentro dela, o que não falta é medo. Medo de ficar pra sempre naquele lugar. Medo de nunca sair. Medo de que a inteligência que todo mundo diz que ela tem não seja suficiente para nada.
Eles não se escolhem. Sobram. Quando a professora junta os dois em um trabalho de grupo, o que ninguém esperava era que o silêncio dele e a armadura dela fossem feitos do mesmo material: cansaço. Daquele que vem de quem aprendeu cedo que o mundo não dá nada de graça.
Construtores é um romance sobre duas pessoas que não tinham nada e construíram tudo. Sobre tijolo por tijolo, dia após dia, um real de cada vez. Sobre um pedido de namoro que não foi dito com palavras, mas com um soquinho e um "fechado". Sobre um bolo que caiu no chão, um abraço no meio do quintal, e duas pessoas dormindo na arquibancada enquanto a festa continua lá embaixo.
Porque, às vezes, o que a gente constrói não é uma casa. É uma vida. E ela não precisa ser grande para ser inteira.