Riih_lim
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Meu pai diz que me ama.
Mas o amor dele tem cheiro de cigarro, culpa e promessas quebradas.
Ele fala pouco, mas quando fala, parece que pesa o ar.
O tipo de homem que aprendeu a controlar o mundo com o olhar - e eu cresci tentando decifrar o que se escondia por trás daquele silêncio.
Às vezes acho que o amor dele é só mais uma forma de controle. Outras, acho que é a única maneira que ele sabe amar.
Nenhuma das duas opções me conforta.
Minha mãe diz que me entende, mas os olhos dela carregam o mesmo medo que os meus.
Jeane sempre tenta esconder o passado com sorrisos cansados e conselhos que soam como pedidos de desculpa.
Ela quer que eu seja forte, mas não percebe que a força dela nasceu do trauma - e que eu herdei mais do que o sobrenome.
Henzo me dizia que eu era o porto seguro dele...
E eu quase me afoguei tentando ser.
Ele era o caos travestido de paixão, o tipo de pessoa que te faz sentir viva e morta ao mesmo tempo.
Com ele aprendi que amor e dor podiam dividir o mesmo corpo. O meu.
Agora tem Igor.
O sorriso calmo, as mãos quentes, o olhar que parece enxergar o que eu tento esconder.
Ele fala comigo como se não houvesse nada de errado, como se meus pedaços não cortassem quem tenta me segurar.
Mas o amor, mesmo o mais puro, às vezes assusta quando a gente só conhece o tipo que machuca.
E eu?
Eu sou o silêncio entre tudo isso.
A pausa entre o grito e o sussurro.
Carrego dentro de mim o peso do que vivi e o medo do que ainda pode vir.
E quando a noite cai, o que resta é essa pergunta que ecoa em mim como um segredo antigo:
O que sobra quando o amor só dói?