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TORTO ARADO - ITAMAR VIEIRA JUNIOR
O dia amanheceu pesaroso, o vento parecia se recusar a soprar como se não fossemos dignos de seu ar fresco, o sol se escondia entre as nuvens como um grão de açúcar no saleiro. Comecei a seguir aquele rastro de sangue que se juntava as terras dolorosas de Água Negra, quando senti um grito rasgar o peito, que me atravessou sem que eu pudesse controlar a sua intensidade.
A fonte do rio era Severo, o homem que trazia resistência e força em suas palavras e ações, que fazia senhores temerem o sopro de vida que aquele corpo negro batalhador carregava, estava prostrado no chão com 8 furos de bala que deu vida ao rio de sangue, rio que tinha nascente com nome e sobrenome. Bibiana sua esposa segurando a cabeça do seu marido no colo, gritava de dor, de raiva e clamava aos encantados ajuda, ajuda ao senhor que agia como guia para aquele povo cativo que lutava todos os dias pela liberdade daqueles que por anos se viam oprimidos.
Enquanto a chuva fina caía, sentia suas gotas tocarem meu corpo como socos vindo em disparadas sobre mim, mas eu ainda clamava pelos encantados, pois a ajuda humana não o salvaria naquele momento. Então se embrenhava no som da chuva aquela voz rouca e cansada que dizia: estamos com ele. Ainda que os olhos dos que cresceram sabendo o poder dos encantados se recusavam a acreditar, que o tempo fez o papel de apagar das mentes de muitos, ela estava lá, Santa Rita Pescadeira fez a fonte daquele rio de sangue parar até que Severo fosse levado para a cidade. E o rio de sangue que corria em Água Negra regou a árvore de raízes profundas, a fonte do rio seguia vendo os frutos nascendo, crescendo e tomando seus lugares, dando rumo a suas sementes que mais tarde faria nascer novas árvores que também tentariam arrancar.