paollavespritenn
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Amelie sempre seguiu em frente - não por força, mas por falta de escolha. Formanda em veterinária e estagiária em uma clínica onde a hostilidade se disfarça de normalidade, ela aprendeu a esconder quem é. Evita rumores, evita proximidade, evita ser percebida. A calma que exibe é frágil; o corpo, porém, entrega tudo: o toque inquieto no pulso, a respiração que falha, o reflexo de recuar.
Seu único refúgio é a Grão Antigo, cafeteria retro onde trabalha aos domingos como estoquista. Ali, invisível entre caixas e aromas, sente-se segura. Conhece apenas vestígios da dona, Lívia Lótus Barrera - o avental dobrado, xícaras alinhadas, histórias sobre blends que ninguém reproduz. Fragmentos que sugerem ordem, nunca intimidade.
Quando a amiga responsável pelo atendimento sofre um acidente, Amelie é chamada para substituí-la. A sombra vira vitrine. E é ali, exposta ao que mais teme, que ela a vê.
Lívia: calma demais, precisa demais, com um olhar que parece atravessar camadas que Amelie manteve intactas por anos. Uma presença silenciosa, feita de controle e de algo que beira o segredo. Há nela rigidez e gentileza, feridas e disciplina - um enigma que só aparece nos detalhes.
O encontro não nasce de afinidade, mas de recuos.
Amelie teme ser vista.
Lívia teme ser tocada por qualquer coisa que possa desestabilizá-la.
Entre as duas, algo se insinua: discreto, perigoso, impossível de conter. Um movimento que nenhuma admite, mas que ambas sentem.
A pergunta que resta não é profissional - é íntima, quase impossível de formular:
Como trabalhar ao lado de alguém que ela conhece apenas por fragmentos... quando essa mesma pessoa parece ser a única capaz de enxergar o que Amelie tentou esconder a vida inteira?