MARCELOBRETTON
Em uma metrópole onde a moralidade era medida por secreções glandulares, a luz não ilumina; ela despoja. No anfiteatro do Zênite Moral, a elite de Maré-Morta se masturba mentalmente enquanto assiste a seminudez dos "Vulneráveis". Não era um julgamento; era uma autópsia em vida. Sob as luzes, o ódio tornava-se um estímulo físico e o desprezo irrigava as glândulas salivares de uma plateia que já não sabia distinguir entre ética e fome canibal.
Elias, um técnico de vigilância cujo passado foi dissolvido em heroína, operava os controles de zoom como quem disseca uma carcaça. Seu trabalho é garantir que cada gota de suor e cada tremor de vergonha da Expositora 109, Mara, sejam transmitidos em 8K para uma multidão sedenta. Mas Mara não era uma vítima comum. Ungida em um corpo escultural de ex-modelo, sua pele brilha como metal líquido, uma afronta biológica que transforma a repulsa do público em um desejo frenético de posse.
Enquanto inspetores destilavam o pânico de Mara em frascos de vidro para consumo privado, os Opacos - insurgentes que habitam o vácuo - preparavam o fim do mundo visual. Quando o pulso eletromagnético finalmente estalou e as luzes morreram, a barreira de vidro se tornou uma ilusão. Três mil "cidadãos exemplares" mergulharam no breu, guiados não pela lei, mas pelo calor da carne e pelo som rítmico das mandíbulas se fechando sobre ela.
O que você faria se a única coisa entre o seu julgamento e o seu apetite fosse uma lâmpada que acabasse de queimar te deixando na escuridão?